° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Moradores do Ipojuca dizem que menina foi morta pela PM e prometem fechar ruas e comércio por três dias

Por

Famílias levaram crianças que estudavam com Heloysa para protestar e pedir justiça

Um dos principais pontos turísticos do estado de Pernambuco, a praia de Porto de Galinhas está irreconhecível nesta quinta-feira, um dia após a morte de uma criança de seis anos ter acontecido na comunidade Salinas, enquanto policiais do BOPE procuravam por um suspeito de envolvimento com tráfico de drogas. Em forma de protesto, moradores iniciaram um ato fechando as vias de acesso à região. O comércio também está sem funcionar, e a previsão é de que esse mesmo cenário se estenda por três dias.

 

O tio da criança que faleceu, Robson, popularmente conhecido por Índio, contou sua versão da história à reportagem do Diario de Pernambuco. Ele foi um dos moradores que desmentiu a fala da Polícia Militar sobre ter acontecido um confronto com suspeitos.

 

"A polícia chegou atirando dentro da comunidade, ninguém atirou na polícia, nem correu na frente deles. A polícia tá chegando aqui e atirando em todo mundo, desrespeitando pai de família, morador, criança... todos nós somos trabalhadores. A polícia saiu atirando no povo, e atirou na Heloysa, que foi socorrida, mas faleceu", disse Robson.

 

Ele também sinalizou que esse cenário é recorrente por lá, e enfatizou que não houve confronto, como apresenta a nota oficial da Polícia Militar.

 

"Antes disso, a polícia já tava vindo e atirando em todo mundo. Pra se livrar, dizem que foi tiroteio e bala perdida, mas é mentira deles. Eles já chegaram atirando e atiraram na minha sobrinha. Isso eu garanto, porque eu estava jantando na minha sala e vi na hora que chegaram atirando em todo mundo", disse Robson.

 

O administrador da policlínica de Porto de Galinhas, Felipe Reis, também trouxe forte declarações sobre a ação da polícia na região litorânea. E estendeu esse protesto como uma forma de reivindicação a um contexto de violência vivido na comunidade há dias.

 

"Isso tá sendo gerado por conta de um contexto que acontece já há vários dias. É uma repressão da polícia, que não respeita as garantias do cidadão. Eles chegam sem mandado, arrombam casas, humilham o cidadão, abordam, botam no chão, reviram casa... e fazem tudo isso sem mandado. E isso tá gerando toda essa revolta", disse Felipe.

 

Outro morador de Porto, que atua junto ao Conselho Tutelar, reforçou o sentimento de insegurança entre os moradores, e classificou a postura da polícia dentro da favela como "uma atrocidade". "Esse protesto é pela atrocidade que a polícia tá agindo dentro da comunidade, porque nós de Porto de Galinhas estamos acuados", afirmou Hatos Wendell.

 

Enquanto o protesto acontecia, uma outra moradora da comunidade, que pediu para não ter a identidade revelada, somou mais uma voz às denúncias de que a polícia vem agindo com violência, tanto na comunidade Salinas quanto nas favelas dos arredores.

 

"Quando a polícia chega, não respeita e não quer saber se tem criança. Isso não começou ontem nem anteontem, mas desde que o BOPE entrou aqui em Porto de Galinhas", disse a mulher, que complementou o retrato do dia a dia fazendo questionamentos.

 

"Tem que dar um basta nessa violência. Isso vem acontecendo frequentemente, então hoje a gente quer dar um basta. Ontem foi Heloysa, e hoje? E amanhã?", perguntou.

 

Ela foi ainda mais uma das pessoas da comunidade que afirmaram que não houve confronto entre policiais e suspeitos, mas ação violenta de uma só via. "A polícia já chega atirando. Aqui ninguém tem direito de ser preso não. Aqui já chega atirando. Não teve confronto", alegou.

 

Protestos e cenário irreconhecível

 

Os atos de protestos tiveram início ainda pela manhã, poucos minutos antes das 9h, com a população local fechando as vias de acesso a Porto de Galinhas. Pneus, móveis, tapetes emborrachados e troncos de árvores foram usados para bloquear a passagem de transportes.

 

Instantes depois, algumas famílias com crianças que estudam na mesma escola em que Heloysa Gabrielly frequentava, levaram cartazes e gritaram por justiça em nome da menina. Foi quando algumas viaturas da Polícia Militar chegaram ao local, na tentativa de liberar a passagem de carros e ônibus, mas isso só aconteceu pouco depois do meio-dia, com alguns policiais e moradores retirando parte dos troncos da barricada temporariamente. Em consequência, o tráfego segue intenso e com apenas uma área de passagem para duas faixas.

 

Além da barricada, outra cena que está transformando Porto de Galinhas irreconhecível é o comércio fechado. Todas as lojas e restaurantes do destino paradisíaco estão de portas fechadas, em forma de protesto e luto por Heloysa. A previsão, de acordo com os próprios moradores, é de que a situação só seja normalizada no próximo sábado (02).

 

  

Apoio de amigos 

 

O pai de Heloysa é jangadeiro em Porto de Galinhas, e numa tentativa de prestar solidariedade e apoio nesse momento de dor e despedida, alguns colegas de trabalho dele estenderam uma faixa com a foto da garota. O grupo de jangadeiros também hasteou uma vela na cor preta em uma das embarcações, simbolizando luto pelo que aconteceu. 

 

 

Turistas impressionadas

 

Duas turistas de São Paulo que vieram até Porto de Galinhas junto a mais dez pessoas no início da semana, presenciaram as cenas desses últimos dias de perto. A dupla de mulheres, que pediu para não ser identificada na reportagem, se colocou "surpreendida" com tudo o que vem acontecendo. Uma delas relembrou quando foi abordada e direcionada de volta ao hotel em que está hospedada junto ao grupo de viagem.

 

"Fomos surpreendidas! Eu estava até filmando a noite de ontem aqui, na maior tranquilidade... tava tudo em paz e a gente tava cheia de planos para esses dias. Lembro quando os lojistas mandaram eu ir embora pro hotel e fiquei sem entender. Não sabia do protesto, nem do caso da menina", disse uma.

 

A outra mulher ressaltou que elas já pagaram por algumas despesas que esperavam poder aproveitar, mas que agora são incertezas. "Estamos com medo de continuar e perder, porque pagamos hotel, passeio, então estamos decepcionadas, e tristes também pela situação. Ontem o comércio fechou por volta das 19h. Eu nunca esperava isso. Imaginava sempre que Porto era segura", disse a outra mulher.

 

A primeira mulher ainda fez questão de se solidarizar com a causa da comunidade. "A gente entende o que tá acontecendo, e entendemos que essa injustiça de bala perdida não acontece só aqui, mas no Brasil inteiro. E no mundo. Acho que há um despreparo. A gente vai para o passeio mais tarde, e não sabe se vai voltar. Ficamos nessa insegurança." 

 


Sepultamento de Heloysa

 

O corpo de Heloysa será velado e enterrado no cemitério de Nossa Senhora do Ó, nesta tarde de quinta-feira, a partir das 16h30. E a expectativa é de que os protestos se intensifiquem após o retorno dos moradores.

 

Prefeitura se pronunciou 

 

Através de uma nota oficial, a prefeitura do Ipojuca se posicionou sobre o caso envolvendo a menina Heloysa Gabrielly, de apenas seis anos. No comunicado, informou que em conjunto com o Comitê de Crise, pediu explicações ao governo de Pernambuco sobre o acontecimento e cobrou providências. Além disso, pediu pelo reestabelecimento da ordem pública no município.

 

A prefeitura encerrou a nota dizendo que está esperando por respostas e aguarda que "os dias de paz voltem a reinar no maior destino turístico do estado". Confira a nota abaixo.