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A resiliência, o abraço e a esperança de dias melhores

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Neste domingo, ela e a mãe estão vacinadas e ficarão juntas em casa. Uma imagem de esperança por dias melhores. Hoje ainda distante da maioria. Foto: Rômulo Chico/Esp. DP Foto
 
Entre as datas de 2020 e 2021 muitas mulheres se tornaram mães, algumas partiram e outras já estão imunizadas. Esse turbilhão de sentimentos trouxe à tona a valorização de momentos simples em família e que, acima de tudo, nosso grande bem: a saúde. A repórter Thays Martins conta como muitas mães estarão preenchidas de gratidão pelo dom chamado vida.

“Mãe não foi feita pra enterrar filho, eu preferia que fosse eu correndo risco no lugar dela.” Essa frase é de Maria Lúcia Pinheiro, 73, mãe de uma das primeiras pessoas em destaque no combate à Covid-19, a infectologista Millena Pinheiro, 45, que atua no Real Hospital Português (RHP). Ela conta que tinha muito receio de colocar em risco sua mãe e a filha, de apenas 12 anos. Muito emocionada, a médica relata que o Dia das Mães mais difícil vivido por ela foi o de 2020. “Passei sozinha e minha única alegria era saber que minha mãe e minha filha estavam longe de mim e em segurança. No Dia das Mães de 2020 eu saí para atender outras mães… saí para ajudar outras mães a voltarem para casa. Esse foi o meu Dia das Mães. Foi muito difícil para muitas mães que estão nessa linha de frente. Ainda está tudo muito recente e é pouco tempo para esquecer as coisas ruins que a pandemia trouxe. Quantas mães estavam afastadas de casa e não conseguiram voltar ao lar?!Sou feliz por ter voltado”, desabafou.

Curiosa e obediente, Maria Lúcia tira todas as suas dúvidas sobre a Covid-19 com a filha, que explica pacientemente para a mãe os riscos da doença, fazendo com que Maria Lúcia seja rígida nos cuidados diários para evitar riscos de contaminação com o vírus. “Eu sempre pergunto muito a ela sobre essa doença terrível. Eu gosto de passear e andar a pé. Sou uma velhinha que não se cansou da vida. Eu amo viver! Mas com essa doença tive que ficar em casa, guardadinha. Deus disse faz por ti que eu te ajudarei”.

O primeiro semestre de fevereiro foi um período marcante e acalentador para Maria Lúcia porque foi quando sua filha recebeu imunizante que protege contra a Covid-19. “Foi um descanso para o meu coração ter minha filha vacinada”. E a mãe da infectologista tem razão, porque, de acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), houve uma queda de 83% no número de médicos mortos em março deste ano, em comparação com janeiro, período em que grande parte dos profissionais de saúde ainda começavam a ser vacinados.

Para completar a felicidade entre mãe e filha, Maria Lúcia também foi vacinada devido à idade. Ao ser questionada se sentia medo de tomar o imunizante, a matriarca foi incisiva e afirmou que sua prioridade era ser protegida. “A que tivesse eu tomaria! Não tem essa história de ter medo de vacina, as pessoas deveriam ter medo de não se vacinar. As pessoas agora querem escolher a vacina e não estamos em tempos de fazer isso. Já estou vacinada contra Covid-19 e no dia 11 de maio já estou ansiosa para tomar a vacina da gripe.”
 
Temores de uma mãe e filha atuando na linha de frente contra a pandemia
 
Além de filha, Millena também é mãe de uma menina de 12 anos. Isso fez com que os medos e receios da infectologista do RHP fossem amplificados no dia-a-dia de combate a Covid-19. “Meu maior temor era contaminá-las. Eu sabia que elas estavam em casa seguras, com tudo fechado, mas eu tinha que sair para trabalhar. No começo da pandemia não tínhamos certeza de nada. Era tudo muito experimental. Tinha medo de chegar em casa e passar isso para minha mãe e filha. Eu me sentia um ser de alta periculosidade.”

O medo em ser um agente transmissor do vírus fez com que Millena alugasse uma casa ne praia, no período do Dia das Mães de 2020, para isolar a mãe e sua filha do contato direto ao risco que ela representava até que pudesse se descobrir melhor os perigos, ainda misteriosos, do novo coronavírus. “A gente só pensa no pior porque temos muito acesso à informação. Então é muito difícil ter o lado racional no medo e esse medo eu não consigo controlar, ele não é tão racional em mim.”

Contudo, o Dia das Mães de 2021 será diferente. Agora, Millena já está vacinada por ser da área da saúde e a mãe pela idade, com isso, estarão  juntas novamente na data comemorativa, mas de maneira especial, ressignificando a comemoração e, claro, sem exageros, como juntar muita gente em casa. “Meu dia das mães deste ano será maravilhoso! Passarei com minha mãe e minha filha. Eu vou valorizar muito mais do que eu já valorizava. Vai ser mais delicioso, por mais simples que seja. Não vamos sair, não vamos fazer nada, mas vai ser muito bom.”

Apesar de vacinada, a médica alerta para o risco de ser contaminada e que os cuidados não podem ser deixados de lado para que exista a manutenção da proteção individual como também o exercício da responsabilidade coletiva. “A pandemia me ensinou que a saúde é o bem mais precioso e que só vamos conseguir sair disso quando o ser humano aprender que a gente tem que ajudar o próximo. Enquanto não entendermos que não basta só olhar para nós, não sairemos dessa. Enquanto a gente não fizer por onde – de verdade – a gente não sai disso.”