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Hospitais provisórios ajudam no combate à Covid-19 no Recife

Sandra Gomes da Silva, 48 anos, dona de casa, incorporou ao seu calendário de datas especiais o dia 23 de abril de 2020. Assim como o 25 de maio nunca mais será o mesmo para Manoel Leandro do Nascimento, aposentado de 76 anos. Eles foram contaminados pelo novo coronavírus e se recuperaram após tratamento nos hospitais provisórios da Prefeitura do Recife, criados para o enfrentamento à pandemia. As datas marcam o dia em que Sandra e Manoel, respectivamente, voltaram para casa. E se, até agora, não se conheciam, acabaram cruzando caminhos e experiências através das estatísticas. Boas estatísticas. Sandra foi a primeira paciente a ter alta. Manoel, o milésimo.
O Hospital da Mulher, onde Sandra Gomes ficou internada, passou por uma grande transformação para atender pacientes da Covid-19. Na área externa, foi montada estrutura de campanha com 208 leitos, sendo 54 de UTIs e 154 enfermarias. “Quando eu cheguei no Hospital da Mulher, fui a primeira paciente a testar positivo para Covid-19. Lá, senti que o meu tratamento ia ser bom. Fiquei impressionada com a estrutura. E foi o que aconteceu", lembra, ressaltando que durante o período que passou no hospital (cinco dias na UTI e dez na enfermaria), recebeu todos os cuidados. “Médicos e enfermeiros foram a minha família. O que a família não podia fazer, eles faziam pra mim”, lembra.
A experiência de Sandra é replicada, ao máximo, nos hospitais provisórios. O tratamento humanizado é adotado e tem feito uma grande diferença. A coordenadora do serviço social no Hospital Provisório 1 (HPR), na Rua da Aurora, Alana Cassemiro, conta o que tem acontecido por lá para ajudar os pacientes a atravessarem esse momento tão delicado. “Ïnspirados em experiências de sucesso, resolvemos trazer para o Hospital Provisório 1 a vídeochamada, que hoje é tida como momento de visita digital. Todas as segundas e quartas, pacientes de enfermarias têm a oportunidade de falar com parentes e amigos”.
“É o momento de matar a saudade, de falar de coisas boas”, explica Alana, detalhando, ainda, que é realizado um contato prévio para que parentes concordem em participar e recebam algumas orientações. Uma dessas orientações é o de falar apenas de coisas boas. “É importante que levem esperança e conforto. O trabalho envolve a equipe de assistência social, enfermagem e a psicóloga, profissional que administra o momento de interação paciente-família”.
No caso de Manoel – hipertenso, diabético e com marca-passo no coração – a família recebia informações do médico por telefone. Diariamente. O fato de Manoel ser do grupo de risco deixava os parentes ainda mais apreensivos, mas a informação constante sobre o estado de saúde dele tranquilizava a todos. Manoel foi submetido ao tratamento na UTI do Hospital Provisório dos Coelhos.
A filha dele, a designer Vanderli Leandro, 50 anos, conta que transmitiu o vírus para o pai. Ela, o filho e o marido tiveram a doença, mas os sintomas foram leves. “Eu saía para fazer compras, levava na casa do meu pai e, sem saber, acabei o contaminando. Quando a médica ligou e disse “seu pai tá de alta, não é maravilhoso?”, eu corri para ir pegar ele. Foi uma enorme alegria”.
Quem também vibrou muito foi a diretora médica do hospital, Danielle Batista. E se emocionou. “O senhor Manoel está representando todos os pacientes que venceram a Covid. É uma data que parece simples, mas que vai ficar marcada para a gente. Talvez como um começo da conquista que a gente tá tendo na luta contra essa doença”.
Danielle informou que, a cada dia, está recebendo mais pacientes no HPR-2, que é o maior da rede, com oito mil metros quadrados, e conta, atualmente, com 420 leitos. Os pacientes, segundo ela, chegam de várias partes da cidade e do Estado para leitos de UTI e de enfermaria. “Quando a gente tem a milésima alta, fica muito feliz porque, ao mesmo tempo que enfrentamos grandes desafios, a gente também vê conquistas”, relata.
Combate
A recuperação de Sandra, Manoel e de tantos outros só foi possível porque a Prefeitura do Recife traçou um planejamento minucioso. Sete hospitais provisórios foram levantados em 40 dias. Três deles erguidos do zero: HPR- 1 (na Rua da Aurora), HPR- 2 (no bairro dos Coelhos) e o HPR 3 – na Imbiribeira. Outros quatro foram montados a partir de estruturas já existentes: as policlínicas Amaury Coutinho (Arruda), Barros Lima (Casa Amarela) e Arnaldo Marques (Ibura), além da estrutura anexa no Hospital da Mulher. Outras duas unidades, a Policlínica Agamenon Magalhães, em Afogados, e o Hospital Evangélico de Pernambuco, unidade filantrópica conveniada à Secretaria de Saúde do município, também contam com leitos para pacientes da Covid-19.
É a maior rede de hospitais provisórios do país em operação. A estrutura física, de pessoal e equipamentos, já recebeu investimentos de R$ 144 milhões. A montagem dos hospitais provisórios faz parte de uma operação inédita e fundamental. Leonardo Gomes, médico, diretor do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e coordenador geral da nova rede de saúde, conta que isso foi possível porque, desde o início, a gestão percebeu que seria necessário ousar. Fazer um planejamento e executá-lo com rapidez e eficiência, de acordo com o que foi previamente definido no Plano Municipal de Contingência Covid-19.
O resultado dessa ação é que a população conta, atualmente, com 727 leitos exclusivo para pacientes afetados pelo coronavírus, sendo 602 de enfermaria e 125 de UTI. A meta anunciada, esta semana, pelo secretário municipal de Saúde, Jailson Correia, é chegar a 1075 leitos em plenas condições de atendimento, sendo 334 de UTI e 741 de enfermarias. O funcionamento pleno deve ocorrer até meados de junho, com a chegada de mais respiradores, item essencial.
O secretário de Saúde, Jaílson Correia, explica que qualquer hospital que é montado passa por um processo progressivo de ampliação dos seus serviços. Isso em tempos normais. “No caso da pandemia, nós tivemos uma abertura de leitos praticamente diária. O hospital ficou estruturalmente pronto, mas a cada dia nós vamos aumentando a capacidade de leitos operacionais", destaca ele, lembrando que tal ampliação, apesar da urgência, depende da chegada de equipamentos bastante disputados no mundo inteiro. É o caso dos respiradores, item essencial.
Hoje, pessoas que precisam de atendimentos no Recife encontram uma infraestrutura diferenciada. O cenário, mesmo com o preocupante aumento do número de casos, não acompanha problemas graves identificados em outras capitais do país. O secretário Jaílson explica que, mesmo quem está em fila de espera, encontra atendimentos nas policlínicas e em salas de estabilização da prefeitura que contam, inclusive, com respiradores.
O coordenador Leonardo Gomes explica que os hospitais possuem leitos de UTI com terapia intensiva, leitos de enfermaria, além de toda a aparelhagem necessária para o tratamento do paciente que contraiu o vírus. Trata-se de uma grande estrutura. O plano de combate ao novo coronavírus no Recife segue várias etapas. “A gente sabe que há uma escassez mundial de equipamentos (EPIs, respiradores), então, desde a primeira unidade de tratamento à Covid-19 que foi criada, na Policlínica Amaury Coutinho, a Prefeitura já vinha se preparando”, explica. Ele lembra que houve uma sincronia de compra de equipamentos, obras de engenharia civil e chegada dos profissionais e de equipes para que não houvesse um descompasso. "Iniciativa que evitou que algum hospital fosse aberto sem que estivesse estruturado para receber pacientes”, explica.
Os hospitais provisórios não têm setor de emergência aberto. São hospitais referenciados. Os pacientes que precisam de atendimento para Covid-19 devem procurar sempre por uma policlínica municipal ou uma UPA para que seja feito o primeiro atendimento. A partir daí, haverá uma triagem médica e, caso necessário, ocorrerá a transferência para um desses hospitais pela Central de Regulação do Estado. O plano da Prefeitura, segundo Leonardo Gomes, envolveu todas as áreas. O coordenador resume o desafio enfrentado pelos profissionais envolvidos: “as secretarias estão focadas em um só discurso, em um só trabalho, que é cuidar, evitar perda de vidas e salvar o maior número de pessoas possível”.
A pandemia surpreendeu o mundo em pleno século XXI. Para combatê-la, sem a existência de uma vacina, gestores do Brasil e do mundo lutam com as armas que têm à disposição. Duas delas, em especial, de acordo com especialistas, podem ajudar efetivamente a fazer a diferença: o isolamento e o distanciamento social, que evitam que muitas pessoas adoeçam ao mesmo tempo, gerando caos ao sistema de saúde, e a infraestrutura para o atendimento aos pacientes.
O Recife investe nas duas frentes. Aderiu ao isolamento - inclusive com quarentena rígida, no período de 16 a 31 de maio - e construiu os sete hospitais provisórios em tempo recorde. Além disso, adquiriu cerca de 3 milhões de itens de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e contratou, para atuar na nova rede de hospitais, 3.600 profissionais de saúde. Homens e mulheres que aceitaram o desafio de enfrentar um inimigo perigoso e desconhecido para salvar vidas. Já consiste, segundo a Prefeitura, na maior contratação da história no sistema de saúde da cidade.
Respiradores
A guerra contra o vírus, entretanto, traz outras nuances. A urgência na aquisição de respiradores, demandados no mundo inteiro, também gera tensão. E, acirradas disputas, inclusive internacionais. Quem comprou primeiro, necessariamente, nem sempre foi quem teve prioridade na hora da entrega.
O Recife, que rapidamente se estruturou, entrou na briga para garantir o funcionamento pleno da rede de hospitais provisórios. Isso porque ainda espera receber mais respiradores que foram adquiridos. Diante da concorrência e dos entraves, decidiu recorrer à Justiça. O dia 11 de junho foi a data anunciada pelo prefeito Geraldo Júlio para a chegada de 33 novos respirados. A entrega foi garantida através de um mandado de segurança, mas, a empresa, em acordo judicial, comprometeu-se a honrar o compromisso.
Existem atualmente, segundo o prefeito, seis contratos assinados com vários fornecedores e, cujas encomendas, o município aguarda a entrega. Uma boa notícia para uma cidade que não baixa a guarda porque sabe que, diante de tantos desafios gerados pela pandemia, um leito a mais na enfermaria, uma unidade de UTI extra que vai ser ativada, pode multiplicar histórias como a de Sandra Gomes e de Manoel Nascimento que terminaram com final feliz.
Números
Novos hospitais provisórios - 7
Capacidade de novos leitos - 1.075
Leitos já disponíveis - 727
Atendimentos nos hospitais de campanha - 8.781
Internações - 2.718
Pacientes curados (altas) - 1.120