Blocos feministas promovem Arrastão do Frevo nas ruas do Recife
Abrindo o Mês da Mulher, blocos feministas promoveram um Arrastão do Frevo nas ruas de Recife neste domingo (1º). A concentração aconteceu no Marco Zero, Bairro do Recife, e teve início às 15h30. De lá, seis estandartes levaram o público pela Rio Branco, Rua da Guia e Arsenal para, por fim, realizar a apoteose em frente ao Paço do Frevo, que hoje contava com entrada gratuita.
A grande anfitriã do evento foi a Nem Com Uma Flor, agremiação da Secretaria da Mulher que há 19 anos atua em prol dos direitos para este recorte populacional. "Acho que acabamos de começar uma tradição. Agora queremos que todo mês de março comece com um Arrastão do Frevo Feminista”, disse a Secretaria da Mulher, Cida Pedrosa. “Estamos aqui, unidas, dizendo que este não é um mês para apenas receber flores no dia 8, é um mês de flor e de luta. Contamos com seis estandartes, espero que no próximo ano tenhamos muito mais.”
Embaladas pelas marchinhas tocadas pela orquestra Só Mulheres, flâmulas veteranas como o Mamãe Quero Mamar, bloco criado em 1988 pela Confederação das Mulheres do Brasil (CMB) e pela Federação das Mulheres Pernambucanas (FMPE), marcaram presença. “Hoje é um marco. Iremos comemorar todos dias de março a luta das mulheres. Nada melhor como resposta para este tempo de obscurantismo e violência que vivemos do que mulheres fortes e alegres para dar a volta por cima”, disse a funcionária pública Ana Nazaré, uma das líderes.
Gupos mais recentes, como o Mulheres da Pá Virada (2018) e Siririx (2020), também se juntaram a festa. “Somos um bloco de mulheres capoeiristas que estavam acostumadas a participar de um bloco chamado Brabos e Valentões. Por ser um bloco majoritariamente masculino, ouvíamos muitos xingamentos como ‘essas daí são Mulher-Macho' e ‘Mulheres da Pá Virada’. Pegamos este termo pejorativo e o transformamos em força. Ser da pá virada agora significa fazer o que queremos”, disse Mestra Bel, uma das criadoras.
“Criamos o Siririx a partir de um grupo de Whatsapp. Descobrimos que uma de nossas amigas nunca tinha se masturbado, não sabia o que era o toque, o prazer feminino e nos juntamos para explicar como ela poderia se conhecer e o que significa para a mulher este ato tão importante, que nos transforma em donas do nosso próprio corpo”, disse a empresaria Twilla Barbosa. “É lindo ver tanta gente celebrando o feminino nesta rua. É incrível juntar tantas mulheres para brincar e não para chorar ou protestar contra a morte de mais uma de nós. Este é o começo de uma nova era, é o momento de se firmar, de nos mostrar fortes e capazes.”
De acordo com a Secretaria de Defesa Social, Pernambuco apresentou, no ano passado, o menor número de assassinato de mulheres em 15 anos. Mesmo assim, 102 foram mortas. Desde que o feminicídio foi definido como tipo criminal, há três anos, 2019 foi o período mais seguro para o sexo feminino. Ainda que tenha vitimado 57 delas apenas pela sua condição de gênero. “Acho que deveria haver uma movimentação maior neste mês de março, mas que não podemos focar apenas nele. Sou advogada e trabalho na Comissão das Mulheres Advogadas, sempre vemos, neste período, muitas pessoas falando sobre violência contra a mulher, sobre assédio e da importância da denúncia, mas estes são assuntos que devem se estender por todo o ano. Só com muito debate conseguiremos consolidar estas ideias”, explica Gabriela Cantanhede, segurando um dos estandartes que desfilou pelo Recife. “O bloco Essa Fada nasceu dessa onda do movimento feminista para a gente dar mais visibilidade para esta pauta, dentro e fora do carnaval.”