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Mar de peixe à espera de comprador
Pescadores do Litoral Norte e municípios estão entrando em colapso
De todas as cadeias produtivas que dependem economicamente do mar e de seus produtos - turismo, comércio, restaurantes - a atividade pesqueira é a ponta mais frágil do processo. Primeiro porque é comum encontrar, na mesma família, homem, mulher e filhos atuando como pescadores, marisqueiras e ostreiros e subsistindo financeiramente dos recursos que a fauna marinha fornece. Segundo porque a curto e médio prazos, quase todas as atividades econômicas conseguem de certa forma se reinventar diante de uma tragédia ambiental como esse derramamento de petróleo cru que abalou o litoral nordestino nos últimos dois meses. A situação é ainda mais delicada nos municípios em que a atividade pesqueira representa a principal mão-de-obra e geração de renda.
Em Itapissuma, no Litoral Norte de Pernambuco, 25% da população é formada por pescadores, marisqueiras e ostreiros. Segundo o prefeito de Itapissuma, José Tenório, depois da administração municipal, é a atividade pesqueira é a segunda maior geradora de renda da cidade e a que mais emprega. Além disso, a pesca move outros setores da economia, como o comércio, através da venda direta e indireta dos pescados e crustáceos, e a gastronomia, com a famosa Caldeirada de Itapissuma, um mercado à beira do Canal de Santa Cruz. “Não temos um valor exato de quanto a pesca representa no Produto Interno Bruto do município porque temos em nosso território as indústrias cervejeiras, que têm maior influência no PIB. E a atividade da pesca artesanal é autônoma e informal, mas temos uma perspectiva de que essa atividade represente pelo menos um quarto do nosso PIB. Até porque muito do que se é pescado aqui é vendido para outros municípios”, disse o prefeito. O orçamento mensal de Itapissuma gira em torno de R$ 7 milhões.
Se na economia há o receio de colapso, no dia-a-dia da população os efeitos do desastre ambiental já são reais. “O óleo não chegou ao Canal de Santa Cruz mas já estamos sendo prejudicados. Tem pescador que tem trocado o peixe por quilo de farinha, de feijão, porque não tem a quem vender e já tem gente passando necessidade”, lamentou a presidente da Colônia de pescadores Z10, em Itapissuma, Joana Rodrigues. Segundo ela, na colônia hoje existem registrados 1,4 mil pescadores, mas há pelo menos seis mil profissionais da pesca, todos sobrevivendo do Canal de Santa Cruz, que divide Itapissuma da Ilha de Itamaracá.
Na última quarta-feira, antes do Governo do Estado anunciar oficialmente a criação de um grupo de trabalho para cadastrar os pescadores, Joana já estava reunindo a comunidade pesqueira de Itapissuma para se registrar. E a fila era grande. “Na semana passada, voltei da praia humilhada porque estava vendendo caldinho e uma cliente perguntou se não tinha óleo boiando. Nós estamos sendo condenados à miséria até mesmo antes de sair o resultado das análises dos pescados”, contou a marisqueira Lindinalva Luiz da Silva. Na casa dela, o marido também trabalha como pescador artesanal. Além dos dias que “vai para o mar”, nos fins de semana Linda vende caldinho, caldeirada e ostra crua no Buraco da Véia, em Brasília Teimosa, além dos clientes diretos que compram crustáceos. “Já faz três semanas que não vendemos nada. E essa é a época do ano que mais ganhamos dinheiro por causa do verão”, lamentou a marisqueira.
Embora o desastre ambiental atinja mais os pescadores, na Caldeirada de Itapissuma, um dos pontos turísticos do município, o movimento caiu pelo menos uns 30% desde que o petróleo cru chegou ao litoral pernambucano. “Os funcionários das indústrias representam hoje cerca de 60% da nossa clientela e eles não deixaram de vir, mas o movimento tem caído muito”, contou a comerciante Aray Cristina, dona do boxe Repeteco do Armando.
Aray lembrou da Greve dos Caminhoneiros, época que para ela foi muito difícil, mas “nada se compara com essa tragédia”. “Naquela greve, a situação foi muito ruim mas sabíamos que em algum momento a greve acabaria. Agora simplesmente não sabemos de onde vem o óleo, até quando ele vai aparecer, se afetou os pescados e quanto tempo esse pesadelo vai durar. E é muito sério porque muita gente sobrevive do mar”, disse. O Canal de Santa Cruz é uma fonte de renda para a população de Itapissuma. Além de peixes como tainha, carapeba, camucim, pampo, o manguezal permite também a pesca de ostra, sururu, marisco, siri mole, siri e camarão.
Pescadores de Itamaracá têm doado grandes estoques de peixes
Na Ilha de Itamaracá a situação não é diferente. Sem atividade industrial e com poucos investimentos turísticos, a pesca e o comércio oriundo dessa atividade representam cerca de 40% do orçamento do município. Segundo o secretário de Meio Ambiente, Clóvis Barreto, dos cerca de dois mil pescadores registrados, apenas 96 estão na lista para receber o seguro-defeso da lagosta. Diferente do que acontece em Itapissuma, onde a pesca artesanal é feita no manguezal, em Itamaracá os peixes são retirados do alto-mar.
Nessa última semana, houve relatos de pescadores que perderam 1,2kg de peixes em apenas um dia por falta de compradores. “Nossos clientes aqui são os turistas, veranistas e moradores da ilha, que representam cerca de 60% da nossa clientela. Já 40% de nossos clientes são de fora da ilha. Vendemos para todo o estado. De todos esses, desde a semana passada só estamos vendendo para alguns moradores da ilha e ainda assim são muito poucos os que compram”, lamentou o pescador e dono da Peixaria do Povão, Ricardo de Santana, registrado na Colônia de Pescadores Z11, na Ilha de Itamaracá. Segundo ele, nas pescas artesanais nos covos e currais em alto-mar, são pegos peixes de médio e grande porte, como a raia, xaréu e moréia.
A cada unidade do Xaréu, por exemplo, que pesa em média 7 quilos a R$ 15 o quilo, o pescador tem perdido em torno de R$ 105. Na última semana, na rua colônia dos pescadores na Ilha, pelo menos umas dez unidades de Xaréu apodreciam em meio ao gelo nas caixas de isopor. “Ninguém está comprando. Ontem eu doei 400kg de peixe para não jogar fora. E só quem aceita são aqueles que não tem o que comer e estão passando necessidade. Essa semana os pescadores deixaram de ir pro mar. Nos meus 57 anos de vida, nunca esperei um negócio desses”, lamentou o dono de peixaria e ex-pescador, Lucemberg Rafael da Silva.
O secretário de Meio Ambiente, Clóvis Barreto, disse que reservas foram canceladas no maior hotel da ilha, Orange, e em pequenas pousadas. “Haverá queda no imposto sobre serviço (ISS), com certeza. Mas toda essa tragédia está atingindo mais diretamente famílias inteiras de pescadores que dependem da venda de seus pescados. Sem eles, a economia na Ilha de Itamaracá não gira. Pois como o pescador e a marisqueira vai ter dinheiro para comprar no mercadinho, na farmácia, na padaria, no armazém? Eu ainda não consigo nem imaginar qual será o prejuízo dessa tragédia para nós. E o município não tem qualquer condições de oferecer um benefício de assistência social”, questionou Clóvis Barreto.