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Até onde vai a tecnologia assistiva?

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Crédito: Juliana Leitão Arquivo/DP
A bengala é um tipo de tecnologia assistiva que ajuda o deficiente visual nos deslocamentos. Manoel Aguiar é cego desde os 11 anos. Crédito: Juliana Leitão Arquivo/DP

O uso da tecnologia assistiva não se restringe apenas a modernos equipamentos eletrônicos, como se possa imaginar. Ela, na verdade, é bem mais antiga e abrange inventos que são, sobretudo, inclusivos. Quem nos convida a conhecer mais sobre as tecnologias assistivas disponíveis e que podem ajudar a melhorar a vida de pessoas com necessidades específicas é o administrador e empresário, Manoel Aguiar, 71 anos, cego desde os 11 anos. Ele próprio aprendeu a importância dessas ferramentas e está a frente do 1º Seminário Pernambucano de Tecnologia Assistiva (SPTA), que acontecerá nos dias 3 e 4 de dezembro, no auditório do Sebrae, na Rua Tabaiares, 360, Ilha do Retiro.

O evento já está com as 250 vagas preenchidas e a sede de informação se explica. Em todo o país são 45 milhões de pessoas com alguma deficiência, segundo o Censo de 2010. Em Pernambuco, os dados do censo apontam que 27,58% dos pernambucanos (2,4 milhões de pessoas) têm necessidades específicas. E cerca de 10,71% (937.943) têm acima de 60 anos. 

Em 2008, o Diario de Pernambuco fez uma matéria com Manoel Aguiar sobre as condições das calçadas do Recife e ele nos conta que a bengala, que lhe ajuda nos deslocamentos, é um tipo de tecnologia assistiva, assim como os óculos, o andador, colher dobrável, entre outros. “O objetivo desse evento é trazer uma discussão sobre conceituação, campos de aplicação e mostra das tecnologias assistivas que são responsáveis por dar mais independência e autonomia à vida das pessoas com necessidades específicas e também ao idoso”, ressaltou Manoel.

Por mais que a tecnologia ajude a melhorar a vida dessas pessoas, Manoel Aguiar, com “doutorado na vida”, explica que é preciso respeitar e aceitar a condição de cada um. “Eu sou cego e essa é uma realidade incontestável. Se eu não me aceitar e encarar as dificuldades será ainda mais difícil. Eu sou cidadão, como qualquer outro, e tenho uma condição distinta. O que eu preciso é conviver com dignidade nessa sociedade que está ai e    no meu estado são 2,4 milhões de pessoas que estão nessa condição”, alertou. 

Uma das propostas do seminário é levar luz as pessoas que estão privadas de ter acesso e usufruir de tecnologia assistiva disponível, seja por desconhecimento de sua existência e funcionalidade ou por razões financeiras. “Vamos apresentar propostas de tecnologias assistida já disponíveis no estado e que as pessoas poderão ter acesso. Vamos mostrar também o que há de mais moderno com mostra de produtos e exposição de veículos adaptados”, explicou o coordenador do seminário.

O celular também é uma ferramenta de inclusão e com uso de software, o cego ou o surdo conseguem se comunicar. “O celular é hoje a chupeta dos adultos, mas é uma ferramenta importante na comunicação das pessoas com necessidades específicas. Tanto por legenda ou gravação de áudio é possível ouvir ou enxergar aacesso à informação. O difícil é quando alguém resolve mandar uma foto e, nesse caso, eu peço para a pessoa descrever a imagem”, disse sorrindo.

O evento vai contar com onze mesas redondas para debater o tema. O Seminário é uma realização da Proacessi, uma empresa de assessoria e consultoria especializada em acessibilidade e inclusão, fundada em 2013, que desenvolve o trabalho de valorização da diversidade, viabilizando o acesso à empregabilidade, educação, saúde, cultura e lazer para as pessoas com necessidades específicas.
 
PROTAGONISMO
Manoel Aguiar encerra a entrevista dando algumas dicas como identificar, sem agredir, as pessoas com deficiência. “Isso pode variar de pessoa para pessoa. Eu não me incomodo em ser chamado de cego. Fico orgulhoso, por tudo que superei, mas ceguinho não é carinho é pena e não soa bem. Já a pessoa que usa cadeira de rodas, não deve ser chamada de cadeirante, pois a cadeira não é mais importante que a pessoa. Ela é usuária de cadeira de rodas”, explicou. Além de doutor na vida, Manoel Aguiar na formação formal é administrador de empresas, mestre em gestão pública e fez o curso de informática. Atualmente se dedica na questão social de afirmação dos direitos e protagonismos da cidadã e cidadão, portadores de necessidades específicas.