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Túnel Augusto Lucena: o planejamento urbano desvinculado a políticas sociais

O Túnel Augusto Lucena, que passa por trás do Shopping Recife, em Boa Viagem, desde sua construção até hoje tem sido uma obra viária envolta em polêmicas. E pouco se tem de registro a respeito desse equipamento, inaugurado em 1994, o que o torna ainda mais controverso. O túnel fez parte do projeto de canalização do Rio Jordão, que entre outros motivos pretendia remover as palafitas que ocupavam o Rio Jordão e impedi-las de retomar ao mesmo local através da abertura da Avenida Dom João VI. Como o planejamento urbano e viário do Recife nunca estiveram vinculados a políticas sociais e habitacionais eficientes, as palafitas se transformaram em barracos que vieram a ocupar a parte superior e as laterais do Túnel Augusto Lucena, dando origem à Comunidade do Pocotó. Em agosto do ano passado, 12 das 42 famílias foram removidas mas sem a perspectiva de resolução do problema maior: eliminar o risco de quem vive em cima do equipamento e quem passa por baixo dele.
“O projeto da Via Mangue, que na época era chamada de Via Costeira Sul e pretendia ligar a Região Metropolitana do Recife, não se encerrava na Avenida Antônio Falcão. Na altura desta via, ela deveria desviar do Rio Jordão até se encontrar com o muro da linha férrea. Tanto que o Viaduto Tancredo Neves foi projetado para passar por cima do metrô, da Avenida Mascarenhas de Morais e da Via Costeira Sul (que ainda seria aberta)”, conta um engenheiro que preferiu não se identificar.
Nesse meio tempo, a Prefeitura do Recife lançou o Projeto Nassau, que previa a canalização de vários rios além da urbanização de algumas áreas da cidade. “Com a canalização do Rio Jordão, muitos barracos foram removidos e para que eles não voltassem a ocupar as margens, foram abertas as vias laterais do Canal do Jordão, hoje chamadas de Avenida Dom João VI”, afirma o engenheiro.
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No entanto, as vias esbarravam no Viaduto Tancredo Neves, que no trecho do Rio Jordão não tinha altura suficiente para passar uma avenida, já que ela não estava prevista no planejamento viário da Região Metropolitana do Recife. Para o ex-secretário de planejamento do Governo Arraes, João Recena, o que houve no Túnel foi uma má-execução do que foi planejado, já que a Avenida Dom João VI não tinha na época um objetivo viário e “ligava o nada a lugar nenhum”. “Eu dei o túnel como ‘monumento à falta de planejamento urbano’, porque foi construído debaixo de um viaduto, o Tancredo Neves, que fez parte de outro projeto, o projeto do Metrô do Recife. Se na época da construção do Metrô houvesse um plano de construção da avenida lateral ao canal, o viaduto seria construído um pouco mais alto e mais extenso, e não seria necessário o túnel”, colocou Recena. O Túnel Augusto Lucena foi construído e inaugurado na segunda gestão de Jarbas Vasconcelos como prefeito do Recife.
A canalização do Rio Jordão, que obrigou a construção da Avenida Dom João VI e a abertura do túnel, tinha como objetivo também a ampliação do “solo seco” entre a Avenida Barão de Souza Leão e a Antônio Falcão para viabilizar empreendimentos imobiliários e expandir a malha viária. Para isso, seria necessário promover a retirada dos antigos moradores dos alagados que viviam nas palafitas dos rios. “Esse túnel, como tantos outros equipamentos do Recife, foi feito em função de interesses políticos e econômicos direcionados à construção civil, sempre empurrando as populações para as periferias. Ele foi construído tão sem propósito que, na década de 1990, chegou a ser utilizado para promover uma rave porque naquela avenida não existia circulação”, lembra o urbanista Noé do Rêgo Barros.
No entanto, para muitos engenheiros, a funcionalidade da Avenida Dom João VI e do Túnel Augusto Lucena veio quase duas décadas depois, quando permitiu dar continuidade ao que viria a ser a Via Mangue (antigo projeto da Via Costeira Sul), ligando a Avenida Antônio Falcão à Barão de Souza Leão até o limite com Jaboatão dos Guararapes. Para o secretário de Mobilidade e Controle Urbano, João Braga, caso o túnel não houvesse sido aberto, não seria possível ligar Boa Viagem a Setúbal por trás do Shopping Recife e toda aquela área “estaria ocupada de forma irregular”. Na época da execução do Projeto Nassau, Braga era o secretário de Infraestrutura e Serviços Públicos de Jarbas Vasconcelos na Prefeitura do Recife. “Se o Túnel Augusto Lucena não tivesse sido construído toda aquela área por trás do Shopping Recife até a Barão de Souza Leão teria sido invadida com construções ilegais e teríamos perdido uma grande área para a expansão do sistema viário do Recife, que foi o aproveitamento das margens do Rio Jordão”, disse João Braga. O secretário reconhece que muitos moradores de comunidades do entorno do Shopping Recife são remanescentes da população removida das áreas alagadas do Rio Jordão.