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E a peleja do pastoril foi parar na Clube
Tradição de festas populares era ignorada pela PRA-8 até que o alagoano Aldemar Paiva desembarcou na Rádio Clube e passou a lotar auditório

Naquele tempo, o ano inteiro tinha pastoril como atração de festas públicas no Recife. Era década de 1950. Nos jornais, os anúncios das apresentações serviam de chamariz. Via-se a versão religiosa, sobretudo às vésperas de Natal e da virada do Ano Novo, mas muito sucesso fazia a versão pagã irreverente. Existia uma tradição folclórica nordestina dessa animação profana - lembra o professor e historiador Luiz Maranhão Filho, revelando o pioneirismo da Rádio PRA-8, a Rádio Clube. “Os pastoris eram danças realizadas com a participação de pastoras, tidas como mulheres de vida fácil, comandadas por um velho pornográfico, licencioso e desrespeitoso. Por este motivo, jamais o tal folguedo teve espaço no rádio”, frisa ele, que cresceu na emissora ao lado do pai, o mestre Luiz Maranhão.
O padrão foi quebrado com a chegada de um talento criativo. Aldemar Paiva, radialista alagoano, desembarcou no Recife e foi contratado pela PRA-8 com a difícil incubência de substituir Chico Anísio na Clube. Homem de cabeça borbulhante de boas ideias, sabia que precisava de uma proposta nova para inovar no show da virada, durante a passagem do ano nas ondas sonoras. “Lembrou o produtor então que, na Rádio Difusora de Alagoas, uma atração era a presença de um tipo de pastoril familiar, cumprido por crianças e adolescentes. Lembrou a expertise da professora Zezé de Almeida, sua conterrânea, que ensaiava e organizava o folguedo”, conta Maranhão, reconhecido estudioso brasileiro quando se trata de rádio. “A convidada veio ao Recife para experimentar a atração. E deu certo”.
A apresentação dos pastoris passaram a lotar o auditório da Rádio Clube e movimentava a capital pernambucana. “Logo despertou a cobiça da recém-inaugurada, a Rádio Tamandaré, que se apressou em descobrir no estado vizinho uma nova organizadora, a professora Maria José Carrascoza”, relata Maranhão. “ “Estabeleceu-se a competição. A segunda emissora local, Rádio Jornal do Commercio, ainda hesitou pois se postava numa linha de elite”, diz o professor. Por pouco tempo. Acabou cedendo e terminou por aderir ao folguedo.
Maranhão lembra que apresentadores de renome faziam as noitadas transmitidas pelas rádios e presença dos pastoris: Aldemar, Almeida Castro, Roberto Linhares, Manoel Malta e mais coadjuvantes incendiavam as torcidas. E não se limitavam a apresentações apenas. Havia uma participação ativa do ouvinte e espectador.
Segundo ele, além das bilheterias, havia a venda de votos para os Cordões Azul e Encarnado. “Eram apurações concorridíssimas e até torcidas pelas ruas, culminando tudo com a Queima da Lapinha, no Dia de Reis, em 6 de janeiro, após desfiles pela cidade em carroças ornamentadas com os dois cordões e as figuras da Diana, do Pastor, da Borboleta e das Ciganas do Egito.
O feito da veterana Rádio Clube - frisa o historiador - teria valido como reforço de caixa para a folha de pagamento dos elencos da PRA-8, além da valorização da tradição. Um costume que foi transformado e que atualmente merece críticas de Luiz Maranhão. “A tradição do pastoril foi muito distorcida pela descaracterização das Quadrilhas nas televisões comerciais”. Algo, para ele, a se lamentar.
Um história de loas
Até hoje os pastoris, com seus cordões encarnados ou anis, são destaques em programações festivas natalinas. E restam alguns grupos mais resistentes, sobretudo os oriundos de subúrbios do Recife, que são chamados a mostrarem suas cores, marchas e loas (músicas chamadas de jornadas) e coreografias ao público em parques públicos a esta época. Continuam a buscar a valorização deste que é um folguedo regional decenal.
Os pastoris representam autos de Natal e seguem aqui o estilo do teatro português. São inspirados na Idade Média, época em que populares se reuniam para contar em aldeias como foi a chegada do menino Jesus. Em Pernambuco, destacam-se alguns estudiosos que se debruçaram a pesquisar a chegada dos pastoris no estado. Maria Alice Amorim, pesquisadora cultural, diz que há notícia que os primeiros pastoris teriam chegado aqui no final do Século 16. Lembra ela que escritos de Pereira da Costa apontam um registro desta data feito pelo Convento Franciscano de Olinda.
Já a historiadora Carmem Lélis, em entrevista ao Diario de Pernambuco anos atrás, fez questão de frisar que “a forma de dançar o pastoril é totalmente nossa. Apesar da influência europeia, é uma expressão nordestina. Cada estado nordestino tem uma peculiaridade. Em Pernambuco, a característica é o dançar das pastoras em frente ao presépio, louvando o nascimento do menino Jesus”. Para esta tradição, a Rádio Clube serviu como fomentadora há algumas décadas.
Esta reportagem faz parte de uma série publicada todas as segundas-feiras pelo Diario de Pernambuco em homenagem aos 100 anos da Rádio Clube.