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Carroceiros retiram areia da praia de Barra de Jangada
Buracos deixados pela extração irregular podem ser vistos no meio da restinga

O caminho no meio da vegetação da Praia de Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, se alarga nas noites e madrugadas. Com a luz natural reduzida, carroceiros se embrenham no capinzal e no amontoado de castanholeiras para retirar areia. Entram e saem do lugar sem restrições. A extração ilegal de areia abriu o caminho com profundidade de até um metro. A largura varia. Próximo dos bares do dique do Rio Jaboatão, mede um metro e meio no máximo. Junto às encostas da Rua Padre Nestor de Alencar, endereço de recém-erguidos arranha-céus, se expande. Ultrapassa os três metros de largura.
"Daqui, um só carroceiro retira dez, quinze, vinte carroças de areia", reclama Juara Araújo Carvalho, 61 anos. Dono de um bar perto do dique, Juara vê na retirada da areia um crime ambiental, que de fato é, e um perigo para o seu negócio. Por essas questões, o comerciante, junto a pescadores e ao vizinho de negócio, Edilson Lucena da Silva, 50 anos, abordou carroceiros. Ouviu desaforos.
A percepção dos comerciantes é de que a extração ilegal reduziu nas últimas semanas, permitindo, com as chuvas recentes, o crescimento de espécies da restinga. Mas o crime ambiental persiste. Na última sexta-feira, a metros da Rua Padre Nestor de Alencar, estrada obrigatória para quem, vindo de Candeias e Piedade, deseja ir ao Paiva e a Pontezinha ou o sentido inverso, percebiam-se marcas de atividades recentes de carroceiros.
A extração da areia aconteceu com um agravante, o corte do manguezal. Desconhecidos derrubaram cerca de dez metros quadrados de uma vegetação que ressurge às margens da lagoa, onde homens e cavalos se banham.
Recados à mão
Na ausência de ações eficazes do poder público, comerciantes e frequentadores da Praia de Barra de Jangada se encarregaram de defender, publicamente, o manguezal e a restinga. Pregaram quatro placas na área alertando ser proibido jogar lixo, desmatar e extrair areia. O alerta vem acompanhado dos telefones de órgãos ambientais aos quais podem se encaminhar denúncias.
Mundos distintos
O que separa fisicamente o areal e o conjunto de arranha-céus erguidos na beira-mar de Barra de Jangada ou, se preferirmos, na beira-rio, são os cerca de vinte metros das calçadas e das pistas de rolamento da Rua Padre Nestor de Alencar. A proximidade não resultou em harmonia urbana. Prédios e praia são mundos distantes.
Terreno fértil
No areal de Barra de Jangada, o mangue e a restinga se misturam a plantas exóticas. A castanholeira ou amendoeira-da-praia se sobressai, formando uma espécie de leque verde em mais da metade da orla. São tantas as árvores da espécie, de origem estrangeira, que os frutos delas, produzidos em grande quantidade, se espalham pelo terreno fértil, ocupando os lugares que deveriam ser da restinga e do manguezal.
Vaga improvisada
A vegetação escassa nas ruas próximas à beira-mar de Barra de Jangada faz das sombras das amendoeiras-da-praia pontos disputados por carros e motos. De segunda à sexta-feira, veículos de trabalhadores, pescadores e desportistas sobem o meio-fio para se abrigar do sol, enquanto aos sábados e aos domingos, são os dos banhistas. O estacionamento é em chão batido e sem demarcação. Cada um estaciona da forma que convém.
Está escrito
O cartaz em forma de peixe, pregado no tronco da amendoeira-da-praia, a quatro ou cinco metros do dique, avisa que sob a árvore se reúnem pescadores, caçadores, aposentados, advogados e militares da reserva. E "outros mentirosos". Gente apegada a boas conversas ou, conforme brinca o comerciante Edilson Lucena da Silva, a conversas de pescadores.
Lagoas nas ruas
O pavimento de duas das cinco ruas perpendiculares à Rua Padre Nestor de Alencar, à beira-mar, desdizem o avanço econômico da região. Ou melhor, mostram a contradição. Na Rua Padre Nestor de Alencar, a pista é um tapete, enquanto poças gigantes ocupam as ruas Cruzeiro do Sul e Alvorada. A Rua Caxias do Sul teve sorte parcial, uma vez que paralelepípedos encobrem somente parte do logradouro.
Horário do crime
Duas coisas, segundo moradores, sobem em Barra de Jangada: a altura dos prédios, capitaneados pelos novos da beira-mar, e a quantidade de assaltos. Estes ocorrem diariamente. Os horários preferidos dos ladrões são o começo da manhã e o fim da tarde, quando os trabalhadores vão e voltam das empresas. E os pontos prediletos para os assaltos são as paradas de ônibus da Rua Padre Nestor de Alencar.