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Engarrafamento S/A: conheça as pessoas que ganham a vida no trânsito do Recife

Pesquisa recente divulgada pelo site Numbeo aponta a capital pernambucana no 10º lugar do ranking das metrópoles com o pior trânsito do mundo

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O malabarista Denis Vieira leva 'minuto de arte no caos da cidde'. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.
Eles arriscam a vida para sustentar suas famílias. Em meio a carros, motos, ônibus e caminhões, vendedores ambulantes das principais ruas e avenidas do Grande Recife têm quase tudo para oferecer aos clientes. Na contramão da crise que já deixou quase 13,5 milhões de desempregados no país, esses homens e mulheres saem de casa todos os dias destinados a vender. A seu favor, contam com os engarrafamentos provocados pela avalanche de carros que ganham as ruas. Até o mês passado, 2.870.777 era o total da frota de veículos de Pernambuco. Só no Recife, o número era de 683.271 veículos, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito de Pernambuco (Detran-PE).

Pesquisa recente divulgada pelo site Numbeo aponta o Recife no 10º lugar do ranking das metrópoles com o pior trânsito do mundo. Além disso, a capital do estado aparece na segunda posição na lista de demora no trânsito entre as cidades brasileiras, perdendo apenas para o Rio de Janeiro. O tempo médio que o recifense perde em cada deslocamento é de 54 minutos, segundo o levantamento. Especialistas ouvidos pelo Diario são unânimes em dizer que a solução para eliminar o caos no trânsito é melhorar o transporte público. “É preciso muita mudança, sobretudo nas pessoas, para que o trânsito flua melhor. A cidade tem que ter gestão de trânsito, garantindo a fluidez. Além disso, melhorias no transporte público precisam ser feitas”, aponta o professor de transporte do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Maurício Andrade.

Enquanto a solução para desatar o nó no trânsito não chega, os ambulantes aproveitam para ganhar dinheiro. É das ruas do Recife que o malabarista Denis Vieira, 25 anos, tira o sustento. Não só isso. Segundo ele, mais do que garantir uma renda, a atividade no trânsito da cidade é a chance de mostrar um trabalho que o orgulha. “Não faço só pelo dinheiro, mas para mostrar minha arte. É como se eu pudesse dar aos motoristas alguns segundos de respiro no meio do caos”, diz.

A apresentação, na esquina da Avenida Conselheiro Rosa e Silva com a Rua Amélia, nos Aflitos, Zona Norte do Recife, é cronometrada. Dos 50 segundos que o semáforo fica aberto, 45 são para se apresentar e cinco para receber dinheiro (ou comida) dos motoristas. Muitos pagam com biscoitos e bolachas que levam no carro. Outros elogiam. “O elogio, os aplausos e o incentivo são uma forma de pagar também. É o que me faz estar aqui”, ressalta Denis. De acordo com o artista de rua, o pagamento vem, geralmente, de mulheres. “Quando tem criança no carro é mais fácil ajudarem financeiramente. De uma forma geral, os que fecham a cara são homens em carros de luxo”, conta.

Um ponto também alertado pelos especialistas são os riscos aos quais estão expostos os vendedores dos engarrafamentos, muitos deles crianças e adolescentes, o que não é permitido de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Na opinião do presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Ailton Brasiliense, a irregularidade do trânsito aumenta o risco dos vendedores sofrerem acidentes. “As pessoas que vendem nas calçadas, de certa forma, estão mais protegidas. O trânsito não é uniforme. Os caminhões e ônibus atrapalham um pouco a visibilidade das pessoas porque são veículos grandes. Além disso, tem as motocicletas. Elas surgem muito rapidamente e podem atropelar essas pessoas que oferecem produtos no meio da rua, principalmente entre os carros. O ideial é que esses vendedores usem roupas de cores claras, para serem vistos mais facilmente. Esse cenário de vendas no trânsito também é muito visto em São Paulo e no Rio de Janeiro”, pontuou Brasiliense.

Gerente de Planejamento de Transporte Público do Instituto Pelópidas Silveira da Prefeitura do Recife, César Cavalcanti aponta algumas sugestões para reduzir os engarrafamentos no Recife. “A sociedade precisa encarar os deslocamentos diários de outra forma. Existem alguns profissionais que precisam realmente passar o dia com carro para circular em vários lugares. Mas as pessoas que trabalham em locais onde ficam muitas horas poderiam passar a usar o transporte coletivo como meio de locomoção. O problema é que o transporte público não é atrativo. Na Europa, as pessoas usam transporte público, mas aqui no Brasil poucos fazem isso. É preciso melhorar muito o serviço para que ele seja usado por mais pessoas e com isso o número de carros nas ruas diminua”, destacou Cavalcanti.

Com as filas enormes de carros parados nos grandes corredores, cresce a cada dia o número de vendedores ambulantes nas ruas. “O Brasil está passando por uma crise e isso gera a necessidade das pessoas buscarem uma renda, o pão de cada dia. Os ambulantes enxergaram essa oportunidade vendendo produtos nos engarrafamentos, pois acreditam que os motoristas têm condições financeiras para comprarem o que está sendo ofertado. A preocupação maior dos vendedores é voltar para casa com dinheiro. Eles não pensam se estão contribuindo para piorar a mobilidade”, ressalta Maurício Andrade. O Diario circulou pelas vias onde mais existem ambulantes e traz a seguir o retrato dessa realidade.

De patins, para atender mais rápido

Em meio aos carros que ficam no engarrafamento da esquina entre as avenidas General Mac Arthur e Mascarenhas de Morais, no bairro da Imbiribeira, o ambulante Técio Lagos, 23 anos, passa como uma flecha perto dos veículos quase parados. Nos horários de pico, a velocidade média dos carros, ônibus e caminhões é de 5 km/h. Vendendo dudu a R$ 1 sobre patins, o ambulante chega a 40 km/h e consegue atender a quase todos os motoristas que esperam no trânsito. O “pulo do gato” para trabalhar no trânsito do Recife, diz Técio, é usar o patins. Além de dar agilidade ao trabalho, o calçado propicia diversão, exercício físico, além de cansar menos do que correr.

Por dia, Técio vende cerca de 200 dudus. Morango, coco, açaí com banana, milho verde, tangerina e uva são os sabores do gelado. A ideia de vendê-los surgiu depois que Técio ficou desempregado. Trabalhava como auxiliar de serviços gerais em um mercadinho. “Quando fui demitido, lembrei do hobby de andar de patins. Pensei em unir a diversão com o trabalho. No primeiro dia, vim com sacolés, mas derreteram. Mas não desisti. Pensei no dudu, e a ideia, finalmente, deu certo.”

O ambulante “bate ponto” de segunda a sexta-feira na rua. Chega às 9h e vai embora por volta das 16h com as caixas de isopor vazias. “Venho como se eu trabalhasse numa empresa. Cumprimento meus colegas de trabalho (outros ambulantes), me organizo (Técio usa farda com proteção UV, microfone para não precisar gritar e boné personalizado) e começo a trabalhar.”

O mesmo trânsito que garante o sustento de Técio também representa riscos. Para diblar o engarrafamento, muitos motoristas e motociclistas pegam um “atalho” na ciclofaixa que vem da Avenida Antônio Falcão até a Mascarenhas de Morais. “Já me acidentei, pois um carro passou na ciclofaixa, onde circulo com o patins, e eu não vi até ele se aproximar. Cai por cima da caixa de isopor e fiquei com dores”, relata. De acordo com a Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife não existe regulamentação para patins como meio de transporte no Código de Trânsito Brasileiro. Dessa forma, usuários de patins podem usar as calçadas ou dividir espaço com bicicletas nas rotas cicláveis.

Chuva para o trânsito e aumenta as vendas

Nem a chuva característica dos meses de junho e julho do Recife impede que a ambulante Mariane Rosendo, 26 anos, saia de casa para trabalhar. Pelo contrário, confessa ela. “Com chuva, o trânsito fica ainda pior, o que é bom para mim”, diz. Mãe de três crianças, ela vende pipoca doce e salgada para garantir o sustento da família, que vive no bairro da Joana Bezerra, área central do Recife. Antes de sair, Mariane organiza os filhos. Mateus Henrique, 7, e Ana Vitória, 5, vão para a escola, enquanto Davi Luiz, 2, fica com a avó materna. Por volta das 8h30, ela deixa a casa e segue a pé para a Avenida Frei Matias Teves, na Ilha do Leite, um dos pontos mais engarrafados do bairro.

Das 9h às 19h30, caminha entre carros, ônibus, motos e bicicletas vendendo pipocas. Foi a primeira mulher a chegar ao ponto, até então dominado por homens. “Cheguei e foram todos muito respeitosos comigo. Tem espaço para todo mundo. Hoje, tem mais mulheres aqui comigo. Algumas são minhas amigas”, conta. Apesar de passar mais de dez horas trabalhando por dia, cada pipoqueiro da avenida ganha cerca de R$ 100 por semana, ou seja, menos da metade de um salário mínimo por mês. “É melhor do que nada. Eu trabalhava como manicure, mas fui ficando sem clientes com essa crise”, comenta.

Ser mulher em um meio majoritariamente masculino, como é o dos pipoqueiros, tem vantagens, diz Mariane. “Os motoristas parecem confiar mais nas mulheres”, conta. A falta de confiança dos condutores e passageiros em relação aos vendedores de pipoca do Recife começou em 2014, quando surgiram as primeiras denúncias de assaltos praticados por falsos pipoqueiros no trânsito da cidade. Em abril de 2015, houve reforço do policiamento na Avenida Agamemon Magalhães, principal alvo dos criminosos, segundo as denúncias, por ser uma via de grande fluxo e trânsito parado. No último dia 20, aconteceu a últim prisão feita pela Polícia Militar de um homem suspeito de se passar por pipoqueiro para assaltar.

E o engarrafamento terminou em pizza 
As dificuldades de locomoção dos veículos na 10ª cidade com o pior trânsito do mundo geram estresse, diminuição da qualidade de vida, poluição sonora e do ar. Por outro lado, os congestionamentos fazem nascer oportunidades de geração de renda. O engarrafamento diário de quase 1 km na Rua General Joaquim Inácio fez um restaurante da Ilha do Leite descobrir uma maneira de aumentar a venda de pizzas. Há cinco meses, dois funcionários da Skillus Classic circulam entre os veículos oferecendo pizzas de mussarela e calabresa aos motoristas. O mesmo faz a galeteria Yoki, na Avenida Abdias de Carvalho, que vende galeto no trânsito da via que dá acesso à BR-232 em épocas em que a rodovia fica engarrafada, como no São João.

No restaurante Skillus, a ideia surgiu quando o administrador Jair Konrad Júnior passou a observar o trânsito intenso em frente ao estabelecimento. Por um mês, ele cronometrou quanto tempo os veículos levavam para passar no semáforo. Chegou à conclusão de que os carros passavam de 15 a 20 minutos parados. “Nunca gostei desse trânsito. Agora, estou começando a gostar”, brinca o empresário. A mudança de opinião se justifica nos números crescentes de venda. O restaurante vem faturando com o congestionamento. Por dia, cerca de 100 pizzas - com oito fatias cada - são vendidas. A de mussarela custa R$ 15. Já a de calabresa sai por R$ 20.

Quando o trânsito começa a travar, por volta das 15h, os garçons Alexandre Francisco e Victor Elias vestem a farda e passam a circular entre os carros. Médicos, empresários e funcionários dos hospitais e empresariais dos arredores estão entre os principais clientes. Alguns fazem questão de passar pela rua só para garantir a pizza na volta para casa. “A gente já perde muito tempo no carro, então é melhor otimizar já comprando o jantar para não precisar parar em outro lugar.

Na rua em busca de emprego


A Agamenon Magalhães, via com maior fluxo de carros do Recife, serve de cenário não só para as dezenas de ambulantes que vendem os mais diversos produtos - no corredor é possível encontrar frutas, equipamentos eletrônicos, bombons, pipoca, água - mas também para quem quer trabalhar em outros ramos. O drama do desemprego vivido por cerca de 13,5 milhões de brasileiros, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aparece em cartazes exibidos entre os veículos que circulam em uma das avenidas mais congestionadas da cidade.

Só este ano, pelo menos dois desempregados aproveitaram a visibilidade na Agamenon Magalhães para pedir emprego. Um deles, o motorista Josimar Rocha da Silva, 55 anos, escreveu um cartaz em um papelão e foi para o meio da avenida, procurar emprego no início de junho. Cansado de espalhar currículo em empresas, resolveu divulgar sozinho a busca por uma vaga de motorista, função que desempenha há mais de 15 anos.

Depois da exposição, seis empresas telefonaram pedindo o envio de currículo. Nenhuma, porém, chamou para entrevista. “Mas ainda tenho esperança que vão me ligar. Sou qualificado, trabalhei em várias empresas de ônibus e fiz curso de condutor de emergência. Escolhi a Agamenon porque o trânsito é parado. Daria tempo de as pessoas lerem”, diz. Em horários de pico, os dois sentidos da avenida chegam a somar cerca de 10 mil veículos por hora. Por dia, nos dois sentidos, trafegam quase 100 mil veículos.

Sem sucesso na Agamenon, ele voltou a exibir o cartaz na Avenida Mascarenhas de Morais, na Imbiribeira, mais perto de casa. “Nunca demorei tanto tempo desempregado. A situação não está muito boa. Está mais difícil que em outras épocas. Tinha visto na televisão uma reportagem sobre um homem que fez isso e disse: vou arriscar”, conta Josimar, morador do bairro Jardim Jordão.

O Mazzaropi da Agamenon Magalhães

Dostoiévski, Clarice Lispector e Graciliano Ramos estão entre os autores citados por Mário José Braz, 65 anos. Leitor voraz de obras das literaturas russa e brasileira, ele trabalha como ambulante desde os 15 anos. Só cursou até a quarta série do ensino fundamental, mas sabe de cor os nomes dos rios e a população das principais cidades do Brasil, Europa e Estados Unidos. “Meu maior sonho era me formar. Só estudei até a quarta série, mas sou culto e gosto muito de ler”, revela. Há três anos na Avenida Agamenon Magalhães, principal corredor viário do Recife, ele carrega um pesado guarda-sol cheio de carregadores, cabos, protetor de volante e paus de selfie.

Nem a dificuldade de locomoção gerada por feridas causadas pela diabetes o impedem de caminhar carregando os objetos. “Tive a ideia de usar esse guarda-sol quando vi Nadando em Dinheiro (um filme brasileiro estrelado por Mazzaropi). Ele escondeu o dinheiro, que ameaçavam roubar, em uma sombrinha. Já eu deixo meu tesouro (produtos) aqui.” Na avenida, é chamado de Mazzaropi pelos outros ambulantes.

Antes de começar a vender acessórios para veículos e celulares na Agamenon, Mário trabalhou no Mercado de São José e na Ponte da Boa Vista, conhecida como Ponte de Ferro. “Quando nos tiraram da Ponte de Ferro, passei fome por alguns meses. Foi quando um amigo me chamou para vender bandeiras do Brasil na Agamenon.” Era 2014. O Brasil havia estreado na Copa do Mundo como campeão da Copa das Confederações. “A expectativa era grande. Achávamos que o Brasil ia até a final. Compramos muitas bandeirinhas”, conta. A derrota por 7 a 1 para a Alemanha, porém, fez os produtos encalharem. “Percebi que os motoristas precisavam mesmo era de acessórios para carro e celular. Com o tempo, eles mesmos iam dizendo o que precisavam e eu trazia.”