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Comunidade que vive sob risco de queda em canal espera habitacional há 6 anos
Moradores da "Escorregou tá Dentro" aguardam desde 2009, quando foi assinado o contrato de obras, a mudança para o bairro do Cordeiro

Entre postos de gasolina, fluxo de trânsito intenso e pontos de venda de automóveis está a comunidade Escorregou tá Dentro. Lá, às margens do sujo Canal do ABC que entrecorta a Rua Cosme Viana, em Afogados, Zona Oeste do Recife, foram levantados barracos de madeira há cerca de 30 anos. Hoje o tijolo é o material de fundação das casas, mas a minúscula calçada, divisória entre residências e o canal, continua perigosa – é relatado que a última pessoa caiu na água insalubre em setembro. Apesar da condição extrema da moradia, desde 2009 os moradores esperam pela entrega do habitacional para onde 96 famílias já deveriam ter sido transferidas. A obra, que extrapolou todos os prazos anteriores, ainda não está finalizada.
Marcos Antônio da Silva, morador da comunidade desde o seu começo, não demonstra nenhuma animação quanto a mudança de endereço. “A gente tá aqui faz muito tempo....”. É na Avenida Maurício de Nassau, no Cordeiro, onde os prometidos seis blocos que abrigam apartamentos de 41m² – divididos em dois quartos, área de serviço, sala, cozinha e banheiro – se encontram fechados aos futuros moradores. A obra foi assinada pelo Governo do Estado e a Caixa Econômica Federal, através do Fundo Nacional de Habitação e Interesse Social (FNHIS), e a empresa realizadora é a Trópicos Engenharia. Consta no Diário Oficial da União que em 21 de junho de 2012 a empresa firmou contrato de R$6 milhões e 958 mil para executar em seis meses a obra. Os 180 dias para o fim também constam na placa em frente do habitacional inacabado, mas o dia de início não.
Por dentro, as casas da comunidade são bastante quentes e estreitas. Do lado de fora, não há espaço para mais de uma pessoa na calçada – os moradores se encostam nos muros ou entram nas casas para dar preferência a quem vai passar. Por conta disso, muitas crianças da Escorregou já caíram no canal. Maria José Ribeiro, que divide a casa com uma filha, também. “Estava tirando as roupas do varal e uma pessoa não quis esperar, aí ela caiu e eu fui junto. Tem muita história de criança que caiu, e sempre tem que alguém pular pra salvar a pessoa. Teve também uma senhora ali de trás que caiu e quebrou um braço.” Em situações urgentes o cenário é ainda mais difícil: uma moradora chamada Noêmia, por exemplo, teve um aneurisma cerebral. Para socorrê-la, foi preciso colocá-la em um lençol, e cada ponta do tecido foi levada por uma pessoa que conseguiu equilibrar a senhora em estado de urgência até a calçada da Cosme Viana.
Previsão de entrega é para 2016
Em nota, a Caixa informou que o ente tomador – no caso, a Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab)– é a responsável pelos projetos, execução e fiscalização das obras. Para a Caixa fica a responsabilidade de “análise e aprovação dos projetos, aferição do percentual de obras executadas e desbloqueio dos recursos ao ente tomador, proporcional ao percentual executado, limitado aos valores liberados pelo ministério gestor do programa”. Já foi liberado pelo ministério gestor R$2,92 milhões, que representa 29% do valor total do repasse. A Caixa desbloqueou R$2,34 milhões paro o Estado.
O Governo de Pernambuco, por sua vez, afirmou que o atraso ocorreu pois “foi necessária uma adequação no projeto inicial do habitacional, parte estrutural e de fundação”. Atualmente, a revisão do projeto tramita e aguarda aprovação da Caixa Econômica Federal e demais órgãos. O habitacional, que deve beneficiar 480 pessoas e custa R$ 6,9 milhões, tem, agora, previsão de entrega para o primeiro semestre de 2016.
Mas não são todas as famílias da Escorregou tá Dentro que irão para o Cordeiro. As outras famílias, além das 96 que devem ser beneficiadas pela obra serão transferidas para Nova Descoberta. À reportagem a Cehab declarou que o terreno, localizado na Rua Chagas Freitas, já foi desapropriado e que o projeto está na fase de contratação da empresa que realizará a terraplanagem para o posterior início das obras. Informou, ainda, que serão entregues 446 unidades habitacionais.