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'Moro está acima de qualquer dúvida', diz jurista José Paulo Cavalcanti

A saída de Sergio Moro do governo tem rendido uma troca franca de acusações por parte do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O jurista José Paulo Cavalcanti Filho, em entrevista ao Diario nesta sexta-feira (24), afirmou que a saída do ex-magistrado do ministério é “uma tragédia” para o Brasil e para a gestão.
“Eu acho que o Moro sai maior do que entrou. De alguma forma, isso é o início do fim desse governo, porque Moro era uma garantia de uma gestão profissional. É muito porque, de alguma forma, dá base na versão que circula em Brasília segundo a qual a razão principal [da saída do ex-ministro] é Bolsonaro querer interferir na Comissão da Polícia Federal que está investigando as fake news e os episódios de domingo passado. De alguma forma, isso ganha ares de verdade. Vamos ver o que vai acontecer. A minha visão principal é uma tragédia para o país, porque um nome como o de Moro está acima de qualquer dúvida, e uma tragédia para o governo”, disse Cavalcanti.
Sobre a acusação de Bolsonaro de que Moro cederia a demissão de Maurício Valeixo da direção-geral da Polícia Federal (PF) caso fosse indicado para ministro do Supremo Tribunal Federal, Cavalcanti minimiza. “Isso é algo a confirmar ainda. Mesmo que tenha sido assim, não tem nada errado. O presidente saiu-se muito mal porque a questão é: não é papel do presidente ser informado sobre investigações da Polícia Federal. Se houver algum tema relevante ele que consulte o seu ministro e peça para informar. Um ministro ir diretamente ligar para um delegado para saber o que ele está investigando é lamentável”, justificou.
José Paulo acha que a suposta ingerência que Bolsonaro almeja na PF é um indício de busca de apoio. “Para ter um impeachment, ele precisa ter 144 deputados com ele. Ele aparentemente não tem isso hoje. Os jornais informam que ele tá negociando com o Centrão. Negociar com esses parlamentares é complicado, porque a prática deles é o avanço no dinheiro público. Ter no Ministério da Justiça e na Polícia Federal pessoas que tenham o compromisso com o combate a corrupção é fundamental. É um momento muito ruim para sair o ministro para entrar qualquer outro no lugar”, avaliou.
“É complicado no momento em que os jornais anunciam que o presidente está negociando com o Centrão. Se havia uma coisa boa nesse governo, para qual a imprensa nunca deu a importância que merecia, é que ele acabou aquele sistema de lotear os ministérios em troca de apoio parlamentar”, continuou o advogado. “Quando Bolsonaro começa a conversar com esse setor, haveria a Polícia Federal observando para ver se existiriam ganhos financeiros para esse pessoal. Essa é uma questão central. Na hora que você negocia cargos com esse pessoal e tira Sergio Moro, que era uma garantia da isenção.. É muito ruim”, afirmou.
Cavalcanti também comentou o pedido de Augusto Aras, Procurador-geral da República, ao Supremo Tribunal Federal (STF), para que se investigue as afirmações de Sergio Moro em seu anúncio de saída do governo. “Uma das características que eu menos gosto nos atores políticos é a ‘canilidade’. Essa fidelidade canina. O Augusto Aras com esse ato de subserviência explícita fica ainda menor ante os olhos dos brasileiros. É uma subserviência vexatória e humilhante para ele. Uma pessoa com o mínimo de amor próprio não teria coragem de fazer o que o Aras fez”, criticou o jurista.
O advogado também duvida que Sergio Moro entre na carreira política após sair da gestão Bolsonaro. “Moro não volta para a judicatura porque ele teria que fazer um novo concurso público e recomeçar a carreira na 1ª instância. Ele não tem mais idade para isso. Não acredito que ele enverede para a política. Nunca demonstrou ter apetite para isso e não acredito que vá. Ou ele vai ensinar nos EUA, tem convite para isso, ou vai abrir uma banca ou vai ocupar algum cargo de empresa, chefiando um departamento jurídico ou algo assim”, disse.