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Editorial: As feridas abertas do Afeganistão
O sofrimento humano é doloroso em qualquer lugar onde aconteça, independentemente de quem sejam as vítimas. Nos últimos anos atentados cometidos contra países ocidentais, matando e ferindo civis, fez com que o terrorismo se tornasse mais, digamos, “familiar” a todos nós que vivemos nessa parte do planeta. A tal ponto que mesmo no Brasil, durante os Jogos Olímpicos, estivemos submetidos a um (inédito) temor de que algo semelhante nos acontecesse.
Existem países, porém, que sofrem com o problema há bem mais tempo. Como o Afeganistão, país asiático com cerca de 34 milhões de habitantes. Ontem um caminhão explodiu numa área considerada de segurança máxima na capital, Cabul, onde ficam embaixadas e representações diplomáticas. Deixou pelo menos 90 mortos e mais de 400 feridos. A maioria civis, incluindo mulheres e crianças. A explosão aconteceu às 8h25 da manhã (hora local). Atingiu janelas e portas localizadas a quilômetros de distância, incendiou dezenas de automóveis e destruiu 50 veículos. Um sobrevivente disse à BBC que a explosão pareceu “um terremoto”. Segundo o noticiário internacional, foi um dos piores ataques ocorridos no país desde a retirada das tropas norte-americanas, em 2014.
Em termos de vítimas, assemelha-se ao atentado praticado na cidade de Nice (França), em 14 de julho do ano passado, quando um terrorista jogou um caminhão sobre multidão que participava de festejos na cidade, matando 85 pessoas, quase todas civis.
Não é de hoje que o povo afegão sofre com bombas e atentados. Em 1979 o país foi invadido por tropas da União Soviética, que lá ficaram até a retirada, dez anos depois. Na época os EUA e o Reino Unido apoiaram rebeldes contra as forças soviéticas. Em 2001, em seguida aos atentados de 11 de setembro em Nova York, o país foi novamente invadido, desta vez por uma aliança internacional liderada pelos Estados Unidos. Os soviéticos ficaram dez anos lá; as tropas norte-americanas, 13. O governo afegão não consegue sustentar-se por si só, e hoje ainda estão no país cinco mil militares da Otan e 8,4 mil dos EUA. Em 13 de abril passado os EUA lançaram a chamada “mãe de todas as bombas” em território afegão, para atacar túneis e cavernas que seriam usados por integrantes do Estado Islâmico.
O que justifica tamanho interesse internacional é a localização estratégica do Afeganistão, cujo território é vizinho do Paquistão, Índia e Irã, situado entre o centro, o sul e o oeste da Ásia, área de interesse dos EUA, da China e da Europa. De fevereiro do ano passado até agora, já ocorreram seis atentados no país, deixando cerca de 300 mortos e centenas de feridos. Como um peão no jogo de xadrez internacional, o Afeganistão não consegue autonomia para cuidar da própria vida e segue sangrando ano após ano, como se estivesse condenado a nunca viver dias de paz.