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Paulo Santos de Oliveira: A eterna peleja do general Abreu e Lima (I)
Aos vinte e três anos de idade, José Inácio tinha apenas uma certeza: jamais desistiria de lutar pela liberdade e pelo direito dos cidadãos de fazerem as suas próprias escolhas
Por Paulo Santos de Oliveira
Romancista, autor de O General Das Massas e de A Noiva da Revolução
Em outubro de 1817, o futuro do jovem capitão de artilharia José Inácio de Abreu e Lima (1794-1869), era mais que duvidoso. A revolução que deveria libertar o Brasil do domínio português, pela qual ele tanto havia trabalhado, acabara de ser sufocada ao custo de mais de 1.500 mortos e feridos e cerca de 800 degredados, em Pernambuco, na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Sua família tivera os bens sequestrados. E ele e o seu irmão Luís, presos na Fortaleza de São Pedro, em Salvador, haviam sido obrigados a assistir ao fuzilamento do pai, o advogado e ex-sacerdote apelidado de “Padre Roma” (1768-1817), enviado para a Bahia como agente secreto do governo revolucionário pernambucano.
Aos vinte e três anos de idade, José Inácio tinha apenas uma certeza: jamais desistiria de lutar pela liberdade e pelo direito dos cidadãos de fazerem as suas próprias escolhas, inclusive as religiosas. E, de fato, em defesa destas causas, ao longo de meio século, ele não só poria a vida em risco em dezenas de combates, por quase toda a América do Sul, como também ameaçaria a sua própria alma imortal à danação eterna...
Com ajuda dos seus irmãos maçons, porém, os irmãos Abreu e Lima fugiram da prisão e embarcaram clandestinamente para a Filadélfia, nos Estados Unidos, onde, no início de 1818, se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas. E de lá partiram para a Venezuela, onde pretendiam se juntar a Simón Bolívar (1783-1830), que lutava contra a dominação espanhola.
Luís, que não gozava de boa saúde, ficou pelo caminho, pois conseguiu emprego em Porto Rico. Mas o robusto José Inácio seguiu adiante, e no início de 1819 chegou à Angostura, cidade erguida no meio da selva amazônica, às margens do rio Orenoco, onde o Libertador havia montado o seu quartel-general. Lá, tornou-se colaborador do Correo del Orinoco, jornal porta-voz dos rebeldes bolivarianos, em cujas páginas polemizou com o gaúcho Hipólito da Costa (1774-1823), que, de Londres, editava mensalmente Correio Braziliense, no qual defendia uma monarquia constitucional para o Brasil e atacava a revolução nordestina de 1817.
Em Angostura, José Inácio também assistiu ao congresso de fundação da Terceira República venezuelana. Em seguida, engajado no estado-maior de um exército de dois mil homens, atravessou a América do Sul de leste a oeste numa marcha duríssima: primeiro, cruzando a Amazônia; depois, a vasta região pantanosa dos llanos, na estação das chuvas; e, finalmente, escalando os Andes em pleno inverno. Em cinco meses essa tropa chegou ao altiplano de Bogotá, desfalcada, doente e desarmada; mas, com o auxílio da população local, derrotou a Terceira Divisão, um dos melhores corpos militares da Espanha, e libertou o então vice-reino de Nova Granada - o Panamá e a Colômbia atuais.
Abreu e Lima acompanhou Bolívar nessa jornada monumental, participando de todas as batalhas e ganhando várias condecorações, além da fama de “guapo”, valente. Também esteve nas campanhas dos três anos seguintes, que decretaram a libertação de Quito, atual Equador; da Venezuela; e do antigo Peru, que se dividiria nem Peru e Bolívia de hoje. Consolidadas, porém, as independências dessas nações, explodiram as intrigas e as disputas pelo poder. A maior parte das elites venezuelanas, granadinas e quitenses não queria a unidade geral numa “Grã-Colômbia”, o sonho de Bolívar; assim como não estavam interessadas em projetos progressistas como a abolição da escravatura, a reforma agrária e a educação popular, defendidos pelo Libertador.
Romancista, autor de O General Das Massas e de A Noiva da Revolução
Em outubro de 1817, o futuro do jovem capitão de artilharia José Inácio de Abreu e Lima (1794-1869), era mais que duvidoso. A revolução que deveria libertar o Brasil do domínio português, pela qual ele tanto havia trabalhado, acabara de ser sufocada ao custo de mais de 1.500 mortos e feridos e cerca de 800 degredados, em Pernambuco, na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Sua família tivera os bens sequestrados. E ele e o seu irmão Luís, presos na Fortaleza de São Pedro, em Salvador, haviam sido obrigados a assistir ao fuzilamento do pai, o advogado e ex-sacerdote apelidado de “Padre Roma” (1768-1817), enviado para a Bahia como agente secreto do governo revolucionário pernambucano.
Aos vinte e três anos de idade, José Inácio tinha apenas uma certeza: jamais desistiria de lutar pela liberdade e pelo direito dos cidadãos de fazerem as suas próprias escolhas, inclusive as religiosas. E, de fato, em defesa destas causas, ao longo de meio século, ele não só poria a vida em risco em dezenas de combates, por quase toda a América do Sul, como também ameaçaria a sua própria alma imortal à danação eterna...
Com ajuda dos seus irmãos maçons, porém, os irmãos Abreu e Lima fugiram da prisão e embarcaram clandestinamente para a Filadélfia, nos Estados Unidos, onde, no início de 1818, se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas. E de lá partiram para a Venezuela, onde pretendiam se juntar a Simón Bolívar (1783-1830), que lutava contra a dominação espanhola.
Luís, que não gozava de boa saúde, ficou pelo caminho, pois conseguiu emprego em Porto Rico. Mas o robusto José Inácio seguiu adiante, e no início de 1819 chegou à Angostura, cidade erguida no meio da selva amazônica, às margens do rio Orenoco, onde o Libertador havia montado o seu quartel-general. Lá, tornou-se colaborador do Correo del Orinoco, jornal porta-voz dos rebeldes bolivarianos, em cujas páginas polemizou com o gaúcho Hipólito da Costa (1774-1823), que, de Londres, editava mensalmente Correio Braziliense, no qual defendia uma monarquia constitucional para o Brasil e atacava a revolução nordestina de 1817.
Em Angostura, José Inácio também assistiu ao congresso de fundação da Terceira República venezuelana. Em seguida, engajado no estado-maior de um exército de dois mil homens, atravessou a América do Sul de leste a oeste numa marcha duríssima: primeiro, cruzando a Amazônia; depois, a vasta região pantanosa dos llanos, na estação das chuvas; e, finalmente, escalando os Andes em pleno inverno. Em cinco meses essa tropa chegou ao altiplano de Bogotá, desfalcada, doente e desarmada; mas, com o auxílio da população local, derrotou a Terceira Divisão, um dos melhores corpos militares da Espanha, e libertou o então vice-reino de Nova Granada - o Panamá e a Colômbia atuais.
Abreu e Lima acompanhou Bolívar nessa jornada monumental, participando de todas as batalhas e ganhando várias condecorações, além da fama de “guapo”, valente. Também esteve nas campanhas dos três anos seguintes, que decretaram a libertação de Quito, atual Equador; da Venezuela; e do antigo Peru, que se dividiria nem Peru e Bolívia de hoje. Consolidadas, porém, as independências dessas nações, explodiram as intrigas e as disputas pelo poder. A maior parte das elites venezuelanas, granadinas e quitenses não queria a unidade geral numa “Grã-Colômbia”, o sonho de Bolívar; assim como não estavam interessadas em projetos progressistas como a abolição da escravatura, a reforma agrária e a educação popular, defendidos pelo Libertador.