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Jacques Ribemboim: Geonomástica pernambucana
Recentemente, com os avanços das tecnologias de informação, aparece novidade a cada momento
Por Jacques Ribemboim
Sócio do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano
jacquesribemboim@hotmail.com
Em Pernambuco, dentre os que se dedicaram à pesquisa dos nomes de lugares, destacam-se Homero Fonseca, Sebastião de Vasconcelos Galvão, Oliveira Lima, Gilberto Freyre, Mário Melo e Vanildo Bezerra, só para citar alguns.
Recentemente, com os avanços das tecnologias de informação, que dispõem na internet acervos inteiros de grandes bibliotecas, aparece novidade a cada momento. Isto é bom para a História, permitindo questionamentos, confirmações, reconstituições inéditas acerca do passado. Deste modo, muitas das interpretações dadas por grandes escritores precisam ser revistas à luz de novas evidências, sem que se diminua em nada o brilho de suas obras.
O primeiro topônimo pernambucano a conquistar notoriedade internacional foi o Cabo de Santo Agostinho, cuja denominação foi concedida por seu descobridor oficial, ninguém menos que Américo Vespúcio, em sua viagem de reconhecimento à costa do Brasil, em 1501.
Aliás, a respeito deste famoso cosmógrafo florentino, nunca se deve descartar a possibilidade de que tenha legado seu nome à Ilha de Itamaracá. Afinal de contas, se a própria América, este continente gigante, presta-lhe homenagem, por que não o mesmo com relação à ilhota pernambucana? Atualmente, a explicação é de que a denominação seria proveniente do tupi, ita%2bmaracá, “pedras cantantes”. Mas é preciso lembrar que a ilha se chamava Tamaracá, assim como a capitania. A inclusão da vogal ocorreu por prótese do “i” de “ilha”, haja vista ser grafado, nos mapas de época, o termo “I. Tamaraca”. Os franceses, primeiros a ocupar a ínsula, chamavam-na de Île-t-Amerique ou Île d'Americá, que os índios repetiam como “Itamaracá”.
No caso do município de Goiana, talvez esteja em curso um problema semelhante. Ali também estavam os franceses, aliados dos caetés. Aventureiros atrás de riquezas, principalmente do pau-brasil, muitos deles originários da Aquitânia, na costa atlântica francesa, que em língua local, gascón, era chamada de Guyenne. Esta é a provável origem do nome da cidade, embora historiadores insistam em atribuí-lo ao tupi, com diversas possibilidades de tradução.
Olinda, por sua vez, não é a “marim” dos caetés, mas a “marin” dos normandos e bretões. Um mapa quinhentista de Vau de Claye mostra o desenho inequívoco de uma fortaleza erguida sobre a colina, assinalando um “chasteau marin”, escrito em francês arcaico (mantendo-se o “s”), cuja tradução é “castelo marinho”.
Nem mesmo a origem do nome Recife escapa de possíveis revisões. Em sua versão amplamente aceita, provém do árabe, ar raçif, monte de pedras, paredão, molhe de arrecifes. Mas ao que tudo indica, a origem é mais remota, proveniente do hebraico ratzif, que significa “plataforma”, “ancoradouro” ou “baia”. Teria sido assim batizado o “Recife dos Navios”, em tenro século XVI, uma época em que judeus e cristãos-novos eram numerosos no lugar.
Cheguemos, agora, ao nome de Pernambuco, cuja etimologia também deve ser contestada, não sendo originária do tupi paranã puka e não significando nenhum “buraco no mar”. Ganha força a tese de que se origina na expressão “boca de Fernão” - boca, aqui, usada como sinônimo de embocadura, porto. Seria, portanto, uma alusão ao arrendatário do Brasil em 1502, Fernão de Noronha. Uma vez que os índios não dominavam o fonema [f], trocando-o por [p], e que a gramática tupi pospõe a coisa possuída à figura do possuidor, a tal “boca de Fernão” se transformaria, invariavelmente, em Pernambuka. Devemos parar por aqui? Por enquanto...