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Documentação do SNI diz que Irmã Dulce não era "subversiva"

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Reitora da UFRPE recebeu documentação antes da realização da palestra. Foto: Divulgação

Uma das figuras mais populares da Igreja Católica no estado da Bahia pode ganhar uma “mãozinha” do regime militar (1964-1985). O processo de canonização da Irmã Dulce (1914-1992) ganhou um reforço da documentação do extinto Sistema Nacional de Informação (SNI), aparelho de vigilância das Forças Armadas. Isso porque o aparelho repressor garante, em seus arquivos, que religiosa não era uma “subversiva”, ou seja, não estava estava associada aos políticos e militantes de esquerda. A associação equivocada de Irmã Dulce ao “mundo dos comunistas” seria vista, nos corredores de Roma, no Vaticano, como um “enpecilho” na sua santificação.

A informação sobre o documento foi revelada pelo historiador e militante do Movimento Tortura Nunca Mais Grimaldo Carneiro Zachariadhes em palestra na Universidade Federal de Pernambuco (UFRPE) na noite desta segunda-feira. “Na ficha da irmã no SNI existe um questionário com algumas perguntas e respostas, como posição ideológica: nada consta. Isso é um documento do próprio regime confirmando que a Irmã não era nem comunista nem aliada a direita”, revelou. A documentação, segundo Grimaldo, já foi encaminhada ao grupo que está tratando do processo de canonização da religiosa. Em 2011, a Irmã Dulce foi beatificada pela Igreja Católica.

Documentos deste porte estão, agora, sob os cuidados da UFPRE, que recebeu a documentação digitalizada do SNI em sua filial em Pernambuco. O registro sobre Irmã Dulce não está entre esses registros, até porque o SNI no estado, cuja sede era nos Correios, no Centro do Recife, ficava responsável pela vigilância de estados como Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Ceará. Os documentos recebidos pelo programa de pós-graduação em história da UFRPE tratam de outros personagens. O conjunto da documentação é da ordem de 8 mil páginas só sobre Pernambuco, sendo 30 mil sobre os outros estados da região Nordeste.

Nomes como o então arcebispo de Olinda e Recife, d. Helder Câmara, o ex-governador Miguel Arraes, o senador Marcos Freire, além do deputado Jarbas Vasconcelos, estão entre os citados na documentação inédita. O Diario teve acesso a parte desses documentos, com exclusividade, em junho deste ano. A reitora da UFRPE, Maria José de Sene, esteve na solenidade de doação dos documentos que estão sob a guarda do Arquivo Nacional. “É uma grande alegria receber esses testemunhos de um período tão marcante para nossa história no sentido de não ser repetido. São documentos importantes para os professores e os pesquisadores da nossa instituição”.

A intenção da UFPRE é disponibilizar esses documentos numa plataforma digital, na internet, com outros acervos dos pesquisadores da instituição. O trabalho vem sendo coordenado pela professora Giselda Brito e conta com a colaboração do corpo docente da instituição, como os professores Wellington Barbosa, Tiago Melo Gomes, Marcília Gama, Maria Rita Machado, Humberto Miranda, Élcia de Torres Bandeira e Alcileide Cabral.