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Reinvenção para comercializar em tempos de pandemia

Páscoa é tempo de reinvenção. Uma palavra que, em tempos de pandemia, vem configurando-se como palavra de ordem para quem comercializa ou empreende. Empresários pernambucanos, dos mais diversos perfis e tamanhos, precisaram redirecionar seus perfis diante de uma nova rotina de isolamento social, encontrar um novo jeito, e algumas vezes, diferentes produtos, para chegar aos consumidores e manter seu faturamento.
Edvaldo Feitosa, mais conhecido como Fofo, trabalha com fabricação e reforma de estofados e toldos. Há três semanas, as encomendas deixaram de aparecer. Na verdade, ele sequer conseguiu fazer a entrega de peças já prontas. Precisou, inclusive, conceder férias antecipadas ao seu único funcionário. No último dia 4 de abril, sua esposa, Roberta Costa, teve a ideia de confeccionar máscaras de tecido 100% algodão para a família, a partir de uma sobra de tecidos para almofadas. “Roberta comentou sobre isso com uma amiga, que perguntou se faríamos uma encomenda de 15 peças para ela. A partir daí, começamos a comercializar o produto por meio das mídias sociais, de lista de transmissão no whatsapp, e o resultado vem chegando. Em três dias, fabricamos e vendemos 130 unidades. Até agora, já foram 345”, relata. As máscaras são comercializadas a R$ 5. A diferença em relação à maioria das existentes no mercado fica por conta do know-how adquirido por Fofo com os estofados e da importação de parte desta técnica para o novo negócio. “São duas camadas, costura interna, externa e acabamento diferenciado. Estamos fazendo de tudo para aumentar a produção, inclusive, para que possamos manter este preço mais acessível”, afirma.
Se a compra de produtos não essenciais foi reduzida a quase zero, o que dizer dos serviços de recreação em um período de isolamento social? Há 30 anos desenvolvendo esta atividade, Tio Lulão não demorou a transformar uma parte das suas atividades recreativas em principal: as brincadeiras de pintar esculturas de gesso. E desde que resolveu fazer o produto para revenda em grande escala, as encomendas não pararam de chegar. “No mesmo dia em que postei um vídeo anunciando as vendas, chegaram nada menos do que 500 mensagens solicitando informações. Foram tantos pedidos que tive que fazer outra gravação informando que precisaria dar uma pausa nas entregas”, conta. Isto aconteceu porque as peças precisam de cerca de 24h expostas ao sol para secarem adequadamente. Além disso, com as lojas fechadas, ele não consegue adquirir mais fôrmas a fim de aumentar a produção.
Além de uma vizinha que confecciona as peças, Tio Lulão ainda contratou dois amigos para administrar os pedidos e mensagens via whatsapp. Eles anotam todas as informações, fazem as planilhas, as distribuem por bairros e encaminham para que o recreador entregue os produtos. Até então, já foram entregues quase 500 esculturas em todos os bairros da RMR. Ele ainda comercializa kits de pintura (caixinha com seis cores e pincel), além de pinceis avulsos. Cada uma das peças ou o kit custam R$ 5. Em meio a figuras de peixes, cachorros, borboletas e carros, Tio Lulão conta que descobriu uma nova forma de trabalho nunca antes imaginada. “Ainda estou me adaptando mas, quando isso acabar, vou continuar apostando neste filão” afirma.
Grandes empresas modificaram dinâmicas de trabalho
Símbolo máximo do comércio, os grandes shoppings, que mais aglomeram clientes em suas instalações, foram impedidos de manterem suas portas abertas no estado. Com isso, também precisaram buscar alternativas. O RioMar, por exemplo, desenvolveu um site, o vivariomarrecife.com.br, onde há um espaço específico para compras online com segmentações por setores: gastronomia, páscoa, brinquedos e colecionáveis mercados e alimentos. No Tacaruna, algumas lojas tomaram a iniciativa do delivery. Sheila Lispector, franqueada das lojas de Recife da Kopenhagen, conta que já fazia entregas de forma pontual, mas que precisou aumentar essa frequência. “Nos reinventamos. É claro que não é possível atender da mesma forma que em uma venda presencial, mas nos organizamos para isso via plataformas e instagram. Foi um teste de fogo”, explica. Ela conta que apesar das vendas significarem, em média, 40% do correspondente a períodos anteriores, o momento é de aprendizado. “Vamos sair disto com outra visão de mercado”, afirma.
As indústrias também acompanham a necessidade de adaptação a uma nova realidade. Algumas modificaram suas produções visando não comercializar os produtos, e sim doar. A Campari, por exemplo, iniciou a produção e doação de álcool 70% para combate ao coronavírus em Pernambuco. O material, produzido na fábrica do grupo em Suape, segue para os hospitais Oswaldo Cruz, Correia Picanço, Hospital da Mulher, Dom Élder Câmara e IMIP. A doação inicial cobrirá, no mínimo, três meses de consumo destes locais. Até agora, já foram doados 5 mil litros, um para cada instituição. O plano é doar, no total, 16 mil. “Nos mobilizamos para a produção de álcool 70% na fábrica de Suape para ajudar Pernambuco nesse momento difícil. Acreditamos que esse tipo de ação incentiva uma corrente do bem e pode ajudar o país no combate à pandemia" conta Carlos Moura, CEO do Campari Group no Brasil.
A Baterias Moura, por sua vez, coordenou a produção local e fez a doação de um produto que nunca esteve nas suas prateleiras: máscaras. A princípio, as equipes atuaram no desenvolvimento de 100 mil delas feitas à base de algodão e filtro de lã sintética e destinada à população, colaboradores do grupo e suas respectivas famílias. A empresa iniciou, ainda, em uma de suas plantas em Belo Jardim (PE) a fabricação de máscaras do tipo Face Shield (escudo facial) para profissionais de saúde, a serem doados a órgãos responsáveis pelo sistema de saúde pública. Para isso, fez uma adequação em parte de suas linhas de produção. Em esquema de força-tarefa, a pesquisa, desenvolvimento do produto e o início da produção em fase de testes aconteceram em paralelo ao projeto de máscaras de tecido. “Reunimos um time de engenheiros e operadores, realizamos todas as pesquisas de disponibilidade de matérias-primas e capacidade de produção e, em duas semanas, iniciamos a produção dos escudos faciais. Isso enquanto outras ações dentro e fora da organização seguem acontecendo”, destacou Reginaldo Agra, engenheiro líder do projeto.