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Espécie invasora é registrada na bacia do rio Paraíba do Norte após transposição

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Peixe Moenkhausia costae, popularmente conhecida como tetra fortuna ou piaba
Entre uma das consequências já notadas da transposição do Rio São Francisco está o surgimento de espécies exóticas. Pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) em parceria com as universidades federais do Rio Grande do Norte e da Paraíba registraram uma nova espécie de peixe na bacia do rio Paraíba do Norte, vinda do canal do rio São Francisco.

O estudo, publicado na edição de maio da revista “Biota Neotropica”, identificou pela primeira vez na região a espécie de peixe Moenkhausia costae, popularmente conhecida como tetra fortuna ou piaba. Para os especialistas, a introdução dessa nova espécie pode provocar um desequilíbrio no ecossistema da região ao competir com outras espécies de peixes nativos.

Conduzido pelo governo federal, a transposição do Rio São Francisco é um projeto que envolve a construção de mais de 700 quilômetros de canais de concreto em dois grandes eixos ao longo do território de quatro estados do Nordeste (Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte) para que a água do rio São Francisco chegue em lugares mais secos da região. Iniciado em 2007, após diversos atrasos e um investimento estimado de R$ 12 milhões, a conclusão está prevista para 2022. Mesmo com a obra ainda em andamento, alguns impactos ambientais já estão sendo notados por pesquisadores.
 
Consequências
A proliferação de espécies exóticas pode causar perda de espécies nativas, redução dos estoques pesqueiros, risco de redução da qualidade da água, desequilíbrio ecológico e consequentemente perda de serviços ecológicos, além de introdução de novos patógenos, por exemplo, parasitos que podem afetar as espécies nativas. 

O pesquisador Telton Ramos, autor do estudo, enfatiza os impactos negativos que a nova espécie pode causar:  “A introdução de espécies exóticas é considerada uma das principais causas de perda de biodiversidade no mundo todo, podendo levar muitas populações de espécies nativas à extinção. No açude Poções, concluímos que a espécie invasora tem se proliferado, e provavelmente está competindo com as espécies nativas”.

Os resultados foram registrados a partir de dados coletados antes e depois da transposição do rio São Francisco. Localizado no município de Monteiro, na Paraíba, esse açude foi o primeiro da bacia do rio Paraíba do Norte a receber águas da transposição do rio São Francisco, em março de 2017. Para realização da pesquisa foram feitas coletas de peixes em julho e novembro de 2016, antes da transposição, e em julho de 2018 e janeiro de 2020, depois da transposição do rio.

A espécie foi localizada pela primeira vez em 2018, quando os pesquisadores coletaram cinco peixes durante o período chuvoso. Já em uma segunda coleta pós-transposição foram coletados 36 exemplares da espécie em período de seca. “Nessa amostragem, a Moenkhausia costae foi a terceira espécie mais abundante, o que nos levou a inferir que a espécie está se proliferando no açude”, destacou o especialista.

A transposição de rios em regiões secas ao redor do mundo tem ocorrido bastante, principalmente, devido à alta demanda por água doce. Porém, estes grandes empreendimentos representam, também, uma ameaça à biodiversidade aquática das regiões ao provocarem um desequilíbrio na fauna nativa. Para Ramos, o estudo serve de alerta para futuras transposições de rios. 

“É necessário muito cuidado em projetos de transposição, para que situações como essa não ocorram com frequência. O projeto da transposição do rio São Francisco previa diversas barreiras que em tese impediriam a passagem de peixes pelos canais, mas pelo jeito, não foram suficientes”, lamenta Ramos.