Beto Lago: "Modelo de votação não favorece a história do Sport"
A ideia do Sport de batizar acessos da Ilha do Retiro através de votação popular tem mérito, mas a forma como a ação foi conduzida deixou sinais preocupantes
Olhar para a história
A ideia do Sport de batizar acessos da Ilha do Retiro através de votação popular tem mérito. Aproxima o torcedor, cria engajamento e transforma o estádio em espaço de memória. Mas a forma como a ação foi conduzida deixou sinais preocupantes. Faltou construção. Uma iniciativa desse porte pedia mais do que uma arte jogada nas redes sociais. Era necessário preparar o terreno, contextualizar os homenageados, despertar curiosidade e emoção. Não se trata de escolher uma camisa comemorativa ou o sabor de um produto licenciado. É a história de um clube que completa, hoje, 121 anos. Também chama atenção a limitação da participação. Concentrar tudo em uma rede social, dominada majoritariamente por um público mais jovem, naturalmente cria um recorte distorcido da memória rubro-negra. Uma votação assim poderia durar semanas, envolver sócios, ex-dirigentes, jornalistas, ações presenciais, conteúdos históricos e diferentes plataformas. Porque o resultado parcial revela algo além da simples preferência popular: ele expõe uma desconexão crescente entre parte da torcida e personagens fundamentais da história leonina. Nomes gigantescos da história leonina podem ficar para trás na preferência popular, como Traçaia, Queixada, Vavá, Betancour, Bria, que ajudaram a construir o Sport centenário, mas que hoje parecem pouco reconhecidos. E isso não é culpa exclusiva do torcedor. O modelo de votação conduzia a esse cenário.
Aproximar passado e presente
Sem um trabalho forte de resgate histórico e contextualização, a tendência natural é que nomes mais recentes ou mais conhecidos nas redes tenham vantagem. A ação tinha potencial para aproximar passado e presente. No entanto, o efeito acabou sendo outro: mostrar o quanto o Sport precisa urgentemente reencontrar sua própria memória. Porque um clube que esquece seus ídolos corre o risco de perder parte da sua identidade.
Dias melhores no Arruda
Se vai dar certo, só o tempo dirá. Mas os primeiros minutos de Cristian de Souza no comando do Santa Cruz abriram uma esperança de dias melhores. Claro que os dois gols em falhas incríveis do goleiro Bruno ajudaram na vitória coral, que tiraram um peso enorme das costas do elenco em uma Série C tão instável. Ainda é cedo para dizer algo sobre o trabalho do treinador tricolor. Mesmo assim, o torcedor coral já se apega aos sinais de reação e volta a alimentar expectativa por algo positivo no Arruda.
Estão criando um monstro
O campo mostra que Neymar não mereceria convocação. Ainda assim, impressiona a campanha em que alguns veículos de comunicação e páginas nas redes sociais compram a briga para que seu nome apareça na lista final do dia 18. A frase de Renê Simões, em que “o Brasil estaria criando um monstro”, talvez nunca tenha sido tão atual. Não apenas pelo jogador, mas também pelo ambiente construído ao redor dele. A pressão midiática pesa mais do que o desempenho em campo.