Beto Lago: 'O grito abafado das nossas arquibancadas'
Já não há aquele peso psicológico, aquele ambiente que fazia o jogo começar em desvantagem para quem vinha de fora
Grito abafado
Há algo que se perdeu no caminho e não foi só o resultado. Durante décadas, jogar nos Aflitos, no Arruda ou na Ilha do Retiro não era apenas enfrentar um time. Era atravessar um ambiente hostil, uma pressão constante, uma sensação quase física de sufocamento. Não por acaso, esses estádios viraram símbolos. Não eram apenas palcos. Eram verdadeiras armas. Hoje, já não são mais. Nossos estádios deixaram de ser territórios inóspitos para adversários. E isso diz muito menos sobre arquibancadas vazias, embora elas também gritem, e muito mais sobre o que está sendo entregue dentro de campo. Nos Brasileiros, a realidade é dura: os clubes pernambucanos já não impõem respeito. Aqui, eles jogam com conforto, controlam ritmo, trocam passes e, muitas vezes, saem com pontos sem precisar de grandes feitos. A mística acabou porque o desempenho deixou de sustentá-la. O medo, no futebol, não se constrói com história, mas com o presente. Na Copa do Brasil, onde o fator casa costuma ser decisivo, o que se vê é o oposto do que já fomos. Jogos que deveriam ser de imposição viram partidas mornas, sem intensidade, sem pressão real. O adversário não sente. E se não sente, cresce. E na Copa do Nordeste, que deveria ser o território natural de afirmação, o cenário é ainda mais simbólico. Clubes que antes temiam vir a Recife hoje encaram como oportunidade. Já não há aquele peso psicológico, aquele ambiente que fazia o jogo começar em desvantagem para quem vinha de fora. Hoje, o grito está abafado. E recuperar não é pedir mais da arquibancada. É devolver a ela motivos para nunca mais precisar se calar.
Paixão se desgasta
Mas é importante dizer que a culpa não é da arquibancada, com o torcedor pernambucano sendo um dos mais apaixonados do País. O problema é que paixão também se desgasta diante de frustrações repetidas, elencos frágeis, falta de identidade e projetos inconsistentes. Não se trata apenas de público, mas de conexão. E hoje, em muitos momentos, ela está rompida. O que antes era pressão virou ansiedade. O que era empurrão virou cobrança. E o que era confiança virou desconfiança.
A imagem do time
Estádios não intimidam sozinhos. Eles amplificam o que o time é. Se torna a imagem do que se exibe dentro de campo. Quando o time acredita, compete e se impõe, a arquibancada vira combustível. Quando o time hesita, erra e se apequena, o estádio ecoa isso e o adversário percebe. Recife já foi sinônimo de dificuldade extrema no futebol brasileiro. Hoje, infelizmente, é mais uma praça onde se pode jogar.
Lembrança não ganha jogo
Recuperar isso não passa por apenas pelo marketing, na promoção de ingressos, de novas campanhas de sócios ou apelando para a boa nostalgia. Passa por reconstrução esportiva séria. Por times que tenham identidade, intensidade e coragem. Porque só assim o torcedor volta a acreditar e só assim o estádio volta a pulsar. Sem isso, continuaremos vivendo de lembranças. E no futebol, lembrança não ganha jogo.