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Beto Lago: "O dia em que o clássico sumiu no olhar de uma criança"

O Clássico entre Sport e Santa Cruz no último sábado (31), não teve as duas torcidas presentes no estádio

Por Beto Lago

Torcida do Sport e Santa Cruz

Não é clássico!
Dentro da Ilha do Retiro, no sábado, aconteceu uma cena que vale mais do que qualquer estatística do clássico. Ao lado do seu pai Rodrigo Carrapatoso, o pequeno Matias observa o estádio, procura com os olhos o espaço tradicionalmente ocupado pela torcida do Santa Cruz e, intrigado, pergunta onde ela estava. O pai, com a naturalidade de quem já se acostumou ao anormal, responde: o jogo é de torcida única. Matias pensa por alguns segundos, olha novamente para o vazio do setor visitante e solta, com uma sinceridade desconcertante: “Então não é clássico!”. A frase, vinda de um jovem torcedor, escancara o que dirigentes, autoridades e discursos prontos insistem em ignorar. Clássico não é apenas camisa, escudo ou rivalidade histórica no papel. Clássico é confronto de identidades, é o choque de culturas, é o canto que tenta se sobrepor ao outro, é o incômodo, o ambiente elétrico, a sensação de que aquele jogo é diferente de todos os outros. Sem isso, vira só mais uma partida, ainda que o nome diga o contrário. A política da torcida única, vendida como solução, acabou virando atestado de fracasso. Não educa, não forma, não aproxima. Apenas retira do futebol um dos seus elementos mais genuínos: o encontro, algumas vezes tenso, mas sempre simbólico, entre rivais. E quem percebe isso com clareza é justamente quem está chegando agora às arquibancadas, sem vícios, sem discursos prontos, apenas com a leitura pura do que vê. Quando uma criança entende que sem a outra torcida não existe clássico, talvez esteja na hora de os adultos pararem de fingir que existe. Porque clássico sem rival não é clássico. É silêncio onde deveria haver barulho, vazio onde deveria haver disputa. E, como bem resumiu Matias, falta o principal: sentido.

Portões abertos
Na quinta, o Santa Cruz deve encarar o Decisão, no Sesc de Goiana, com portões abertos. O clube não havia garantido, previamente, a empresa de segurança exigida por lei. A solução veio agora, com a contratação da AK, a mesma que atua nos jogos da Ilha do Retiro. O Decisão tinha ciência da obrigação, mas aguardava a contratação pela Prefeitura de Goiana.

Atestado de desorganização
Quando a gestão é desastrosa, os sinais aparecem depois. Ver um ex-executivo acionar a Justiça para cobrar despesas que deveriam ter sido pagas pelo clube, mas acabaram bancadas do bolso do funcionário, é o retrato do improviso travestido de administração. A ação movida por Enrico Ambrogini é um atestado público de desorganização, falta de planejamento e desprezo pelos processos básicos de governança.

Tapa na cara do torcedor
Esse tipo de situação não nasce do acaso. A gestão operou no limite do improviso e normalizou práticas que jamais deveriam ser aceitáveis. O mais grave é o impacto institucional. Casos como esse corroem a credibilidade no mercado, afastam profissionais qualificados e reforçam a imagem de um Sport instável, onde contratos e acordos valem pouco. A cobrança de Ambrogini é um alerta, mas também um tapa na cara de cada torcedor rubro-negro.