Beto Lago: "Um clássico imperfeito, onde se jogou mais com o peito do que com os pés"
O Sport levou a melhor no Clássico das Multidões contra o Santa Cruz
A alma do clássico
Nunca se deve subestimar um clássico. Ele pode até faltar em brilho, mas raramente falha em verdade. No sábado, a Ilha do Retiro foi palco de mais um desses jogos que não pedem aplausos pela técnica, e sim respeito pela entrega. Sport e Santa Cruz se enfrentaram como manda a cartilha dos duelos grandes: suor escorrendo, pulmões queimando e a bola, quase sempre, disputada como se fosse a última. O jogo foi duro, áspero, como costumam ser os encontros que importam. Era cedo demais na temporada para exigir refinamento. Sétimo jogo de ambos, pernas ainda procurando ritmo, ideias em fase de rascunho. O Leão tenta se encontrar, ajusta peças, espera estreias. O Tricolor vive o estado de reinício: aguarda um novo treinador ou decide se confia o Estadual às mãos provisórias de Fábio Cortez. Em meio a tanta indefinição, o futebol bonito acabou ficando para outro dia. Mas o clássico não pediu licença. Pediu coragem. O Sport marcou o gol da vitória nos acréscimos, quando o relógio já parecia conspirar contra qualquer justiça. E o Santa Cruz, teimoso como sua história, recusou-se a aceitar o destino, buscando o empate até o último lance. Foi um jogo imperfeito, sim e por isso tão honesto. Um daqueles que se joga mais com o peito do que com os pés.
Frevo sem multidão
Só faltou o que faz o clássico ser completo: o outro lado da arquibancada. A Ilha do Retiro sentiu a ausência do rival, das provocações, do barulho cruzado que dá sentido ao espetáculo. Futebol sem divisão de cores é como frevo sem multidão. A tal da “torcida única” transforma memória em silêncio. Onde antes havia tensão, resta um vazio educado. Onde a rivalidade ensinava convivência no conflito, sobra o afastamento. Quem viveu os clássicos de arquibancada dividida sabe: nunca foi sobre ódio, mas sobre pertencimento. Sobre reconhecer no outro o espelho que dá sentido à própria paixão. E quem decidiu pela “torcida única” talvez nunca tenha entendido que rivalidade não é ameaça. É parte da alma do jogo.
Detalhes de um clássico na Ilha
A banda da Polícia Militar executou o hino de Pernambuco, mas se perdeu no ar. Ninguém ouviu no estádio. O que se impôs foi a arquibancada, que aproveitou o momento para puxar os cânticos da organizada. No estacionamento da Ilha, carros com som no último volume, uma disputa paralela de decibéis em um território sem regra. A festa existe, é parte da cultura do jogo, mas falta limite. Cabe à diretoria organizar o espetáculo e disciplinar o torcedor.
Náutico firme e o Retrô, imprevisível
O Náutico fechou a liderança com a tranquilidade de quem pôde rodar o elenco e ainda assim vencer o Vitória. O grande sinal positivo vem da base. Rosa, aos 17 anos, decidiu o jogo e traz boas esperanças do trabalho de formação. E o Retrô segue sendo uma incógnita. Na quarta-feira, derrubou a invencibilidade do Timbu, nos Aflitos. No sábado, no mesmo palco, foi incapaz de se impor diante do Decisão. Essa montanha-russa de atuações levanta dúvidas inevitáveis. Falta consistência, sobra irregularidade. E vem a pergunta: dá para confiar que a Fênix consiga repetir uma boa atuação por dois jogos contra o Maguary?