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Xô, fantasma

De Romário a Emerson, o ato sumário de afastar atletas às vésperas da estreia resgata assombrações históricas e o medo que amedronta a Seleção Brasileira em busca do hexa.

Por Ricardo Novelino

Passado e presente unidos pelo trauma: Romário (direita) durante choro pelo corte em 1998 e o lateral Wesley (esquerda), novo alvo do 'fantasma' da Seleção Brasileira às vésperas de 2026

O futebol tem histórias que só ele é capaz de contar. Dentro e fora das quatro linhas, tudo o que acontece é amplificado. Ganha vida. Ganha corpo e alma. E muitas delas viram lendas e até fantasmas.

O velho “esporte bretão”, como diriam os muito antigos, prega peças desde que o mundo é mundo.

Tanto é que o gênio das letras Nelson Rodrigues, o mais carioca dos pernambucanos, criou figuras para tentar explicar o que nem ele conseguia: o “Sobrenatural de Almeida” e o “Gravatinha”.

O “Sobrenatural”, essa primeira “figura”, integrava o folclore das crônicas “rodriguianas” quando algo de ruim acontecia em jogo do Fluminense, esquadrão defendido a ferro e fogo pelo jornalista e dramaturgo.

O segundo personagem, o tal “Gravatinha”, surgia como prenúncio de vitória para o Tricolor das Laranjeiras.

E, ao longo dessa história, entre os mais temidos fantasmas que rondam e amedrontam o futebol e os boleiros, não necessariamente nessa ordem, está o corte.

O ato sumário de desligar, afastar e ceifar um atleta de um grupo é doloroso. Um fantasma pavoroso, sobretudo quando se trata de véspera de Copa do Mundo.

No domingo (7), eis que a maldição do corte se materializou na Seleção Brasileira, faltando menos de uma semana para a estreia neste Mundial de 2026, contra o time do Marrocos.

Muito se falou que o fantasma já estava rondando o grupo do italiano Carlo Ancelotti. Especulou-se que uma visita seria feita a Neymar Jr., que não joga nem treina há dias, por causa de uma lesão na perna.

Mas a danada da assombração do corte caiu mesmo nas costas, ou melhor, na coxa, do lateral Wesley.

A faca não teve piedade. Num golpe certeiro, tirou o atleta da Roma do maior evento esportivo do planeta.

Até que teve um auê, bem de leve. Nada de choro, vela ou comoção. Nada de faixa ou “sistema nervoso” geral e irrestrito.

Nada que pudesse ser comparado se a Faca Ginsu (quem lembra dela?) tivesse decretado o fim do jogador do Santos na era das Copas, após três tentativas e sequer uma final.

Na história das Copas, o fantasma do corte não tem sido “camarada”, como aquele personagem de desenho animado, o Gasparzinho.

Em comum, ficaram os traumas provocados pelo afastamento de atletas, seja por contusão ou indisciplina.

Até o escrete de 70, considerado o melhor de todas as Copas, teve corte, embora poucos lembrem.

O ponteiro Rogério, do Botafogo, chegou a ser titular na preparação. Teve um problema físico e teve que virar “olheiro” da comissão técnica. O goleiro Emerson Leão, do Palmeiras, foi chamado e não jogou.

A ponta direita ganhou novo titular. Jairzinho, também do Fogão, virou o “Furacão” e a taça Jules Rimet entrou na bagagem da Seleção definitivamente. Ops, até ser roubada e derretida.

O timaço de 82, que encantou, mas não levou, teve seu fantasma do corte. Careca, atacante revelado pelo Guarani (SP), teve uma lesão, o que obrigou o médico a mandá-lo de volta para o Brasil, já na Espanha, e deixou um buraco naquele ataque incrível.

Até hoje, dá para imaginar como seria unir o centroavante a Zico, Sócrates, Falcão e Éder.

A história conta que Serginho, o Chulapa, ganhou a vaga e tirou a cereja daquele bolo.

Quatro anos depois, em 86, o fantasma do corte foi ainda mais maldoso. Por indisciplina, Renato Gaúcho, que “voava” pela ponta direita, ficou fora do time que caiu nas quartas de final no México. E, de quebra, levou o craque Leandro, que preferiu não viajar.

Que posição complicada essa lateral direita. Ainda em 86, sem Leandro, Telê Santana apostou em Edson, que também foi cortado, dando lugar ao então desconhecido Josimar.

O cara do Botafogo fez gols espíritas, mas não conseguiu resolver contra a França, de Platini.

Um dos fantasmas mais famosos sacudiu a Seleção em 1998, pouco antes da estreia da equipe na Copa da França.

O “cara” do Tetra, quatro anos antes, nos Estados Unidos, era Romário. E ele acabou sendo sacado às vésperas de o Mundial começar.

Tinha uma contusão na perna, algo que poderia lembrar a “questão Neymar Jr.”. O “Caso Romário” deu muitas manchetes. De nada adiantaram o choro e a revolta da torcida. Zagallo e Zico, os responsáveis pelo time, decidiram embarcar sem o Baixinho.

Anos depois, persiste a pergunta: e se ele estivesse no fatídico dia em que Ronaldo teve a convulsão, horas antes da final? Teria a França, de Zidane, dado uma lapada de 3 x 0 na gente?

O fantasma do corte mudou até o capitão da Seleção. E logo no penta. Poucos lembram, mas antes de Cafu levantar a taça e se declarar para a mulher na frente de bilhões de telespectadores, no Japão, em 2002, o líder daquele grupo era o volante Emerson.

Faltavam poucas horas para o time de Felipão pegar a Turquia, na estreia, quando o então capitão do time resolveu bancar o goleiro em uma “pelada” depois do treino oficial.

Em um chute do craque pernambucano Rivaldo, sofreu contusão no ombro e deixou o grupo.

Ricardinho, hoje comentarista, assumiu a vaga, e Cafu ganhou a braçadeira e o direito de figurar entre os cinco jogadores brasileiros a erguer a taça em toda a história.

Faltando poucos dias para a estreia nos EUA e já assombrado pelo corte, resta rezar e usar todas as mandingas possíveis para deixar esse fantasma longe da Seleção “Canarinho”.

Chega de assombração!