O herói treinador que resgatou o time e termina primeira fase com o carimbo de vilão
Herói e vilão
A chegada do técnico Cristian de Souza foi fundamental para tirar o Santa Cruz do momento negativo, quando brigava na parte de baixo da Série C. O time mudou, cresceu e mirava uma vaga no G8. Cristian era o herói da reação coral. Mas o futebol é cruel. E o herói virou vilão rapidamente. Tudo isso na reta final. Em partidas que pediam apenas o bom “feijão com arroz”, Cristian complica. A derrota para o Maranhão, na Arena, colocou uma pressão que não deveria ter existido. E, no sábado, contra o Anápolis, a história se repetiu. O primeiro tempo foi bom. O Santa Cruz criou as melhores chances - Eron teve duas boas nos pés. O gol de Eurico trouxe a calma para os últimos 45 minutos. O Tricolor era vice-líder. Incrível. Mas Cristian abdicou do ataque. Deixou Eron isolado entre os zagueiros e ficou no banco rezando para o relógio correr. Aos 23, veio o gol do Anápolis. Não poderia sofrer o segundo, observando os resultados dos concorrentes. No fim, 1x1. E o Santa Cruz precisou acompanhar, aflito, os minutos finais das outras partidas. Em Campinas, o Guarani parou no Brusque. Em Manaus, Ypiranga e Amazonas ficaram no 2x2. Um gol em um desses jogos e o Santa Cruz estaria fora do Quadrangular. A torcida coral, que percorreu mais de dois mil quilômetros para acompanhar sua paixão, voltou para Recife irritada. E com razão. E essa conta cai diretamente no colo de Cristian de Souza. O herói treinador que resgatou o time e devolveu à torcida o direito de sonhar, termina a campanha com outro carimbo: o de vilão. Transformação dolorosa, porque, na reta final, faltou aquilo que ele havia devolvido ao Santa Cruz: confiança para jogar.
Humildade rara
Humildade é uma palavra difícil no futebol, principalmente depois de uma vitória. Basta a bola entrar e os três pontos aparecerem para, de repente, tudo parecer resolvido. A confiança, muitas vezes, dá lugar à arrogância. O discurso muda e aquilo que era preocupação passa a ser tratado como coisa do passado. Como se uma vitória pudesse apagar uma sucessão de erros, fracassos e decisões equivocadas. Não pode. Vitória é alívio. Não é ressurreição.
Pés no chão
O futebol cobra maturidade nesses momentos. Quem aprendeu com os erros sabe comemorar sem perder a noção da realidade. Três pontos devolvem confiança e melhoram o ambiente, mas não corrigem problemas construídos por meses. É preciso saber entender por que a equipe chegou àquela situação. Confundir um bom resultado com a solução dos problemas é apenas mais uma maneira de repetir os mesmos erros. O que irrita é a passividade da diretoria, permitindo ações intempestivas de seu subordinado.
Força da razão
Humildade não diminui ninguém. Ao contrário. Mostra quem tem consciência do tamanho do desafio. Admitir que ainda há muito a melhorar não é sinal de fraqueza. É maturidade. Quem reconhece os próprios erros tem mais chances de não repetir. Uma vitória deve ser festejada. Mas é a continuidade que dirá se ela foi apenas um ponto fora da curva ou o começo de uma transformação. Uma vitória muda o ambiente. Só a continuidade muda uma história.