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Beto Lago: 'Nosso futebol e seus Rolandos Neros'

Não há oratória que sustente um time desorganizado por muito tempo

Por Beto Lago

Recife, PE, 13/07/2025 - SANTA CRUZ X SANTA CRUZ - RN - Na tarde deste domingo(13), a equipe do Santa Cruz recebeu a equipe do Santa Cruz de Natal pelo Campeonato Brasileiro da Serie D 2025 no estádio do Arruda.

Rolandos Neros
No futebol, palco onde a emoção muitas vezes fala mais alto que a razão, a disputa entre o “dom da oratória” e o “dom da verdade” não é apenas retórica. Há cada vez mais “Rolandos Neros” (personagem da Escolinha do Professor Raimundo) em coletivas, entrevistas e até dentro de campo. Não necessariamente mentirosos no sentido bruto, mas especialistas em construir versões.

Técnicos que transformam derrotas em “processo”, dirigentes que vendem caos como “reorganização”, jogadores que trocam autocrítica por frases prontas. A palavra bem colocada virou escudo. E o torcedor? Esse, muitas vezes, quer acreditar. Porque a verdade no futebol é dura, não tem floreio. A verdade diz que o time jogou mal, que o planejamento foi ruim, que o elenco é limitado. Já a oratória seduz: fala em evolução, em grupo fechado, em detalhes que precisam ajustar. É mais confortável consumir esperança do que encarar realidade.

Mas a culpa não é só de quem fala bonito, mas de quem também aceita pouco conteúdo e muito discurso. A imprensa, em alguns momentos, embarca nisso, por conveniência ou preguiça analítica. E o ambiente do futebol estimula o imediatismo: ganha hoje, discurso validado; perde amanhã, troca-se o roteiro, mas mantém-se o tom. No campo, porém, a verdade sempre aparece. Seja na forma de tabela, de desempenho, de padrão de jogo ou da ausência dele.

Não há oratória que sustente um time desorganizado por muito tempo. Ou um dirigente contador de histórias. Pode até ganhar tempo, mas não compra resultado consistente ou apoio incondicional. O problema é que, enquanto a verdade não se impõe, decisões seguem sendo tomadas com base em narrativas e não em diagnóstico.

Balanço do Náutico
O balanço do Náutico é o retrato de um clube que já não administra uma crise, mas a própria sobrevivência. Com um passivo a descoberto de R$ 145 milhões, o Náutico opera, na prática, sem rede de proteção. O salto do déficit anual, de pouco mais de R$ 1 milhão em 2024 para R$ 18,5 milhões em 2025, não é apenas um desvio de rota. É a confirmação de um modelo incapaz de se sustentar.

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Estrutura de custos pesada
A receita cresce, mas é engolida por uma estrutura de custos pesada: as despesas operacionais saltaram de R$ 11 milhões para R$ 31 milhões. Com um déficit de capital de giro de R$ 28,3 milhões e dívidas de curto prazo pressionando o caixa, o Náutico depende agora de prazos alongados, descontos negociados e, sobretudo, credibilidade, um ativo que os números insistem em corroer. A conta judicial, que se aproxima de R$ 260 milhões, é mais do que um passivo: é um freio permanente sobre qualquer tentativa de reorganização.

O problema é o tempo
Há respiros no balanço. Créditos a receber da Arena, superiores a R$ 32 milhões, e valores decorrentes de disputas judiciais favoráveis podem oferecer alívio. Mas são recursos condicionados, travados em auditorias e decisões institucionais. Não entram no caixa no tempo da urgência. E o problema do Náutico hoje é justamente o tempo: falta fôlego para o presente.