Com 'Dia D', Spielberg volta aos alienígenas em forma de manifesto inocente por paz e comunicação
Otimismo e deslumbramento marcam nova história de OVNI de Steven Spielberg, que atualiza o conceito de seus clássicos, como 'Contatos Imediatos de Terceiro Grau' e 'E.T. - O Extraterrestre'
É rara a oportunidade de ver um cineasta lendário retomar uma ideia central da qual ele mesmo foi o maior definidor. Esse é o caso de "Dia D", de Steven Spielberg, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (11). O cineasta transformou o imaginário do filme de alienígena com "Contatos Imediatos de Terceiro Grau" (1977) e seguiu revisitando o tema, especialmente com "E.T. - O Extraterrestre" (1982) e "Guerra dos Mundos" (2005), que têm abordagens distintas. Para ele, nunca estivemos sozinhos, mas seu questionamento no fundo sempre foi o mais essencial: quem somos?
Em "Dia D", Maggie (Emily Blunt) é uma apresentadora meteorológica que ganha um misterioso poder de clarividência após o contato com um pássaro. Paralelamente, Daniel (Josh O’ Connor) rouba arquivos ultra-secretos de um serviço de inteligência do governo com informações concretas sobre movimentação extraterrestre. Perseguidos por agentes que buscam impedir a revelação do segredo para o mundo inteiro, liderados por Scanlon (Colin Firth), os dois personagens têm seus caminhos atravessados de forma irreversível.
Com as recentes decisões do governo Donald Trump de liberar informações sigilosas sobre Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs), "Dia D" mostra que essa dúvida existencial da humanidade está mais instigada do que nunca. Os temores internacionais com relação a grandes conflitos, por outro lado, também. E é nesse contexto de tensão entre o fascínio e a ansiedade que surge esta ficção científica simultaneamente urgente e esperançosa, concebida por Spielberg em parceria com o roteirista David Koepp.
Apesar de todo o mistério promovido pela sua divulgação, porém, “Dia D” não reserva exatamente grandes surpresas. Ou, pelo menos, não explora a noção de vida fora da Terra a partir de conceitos visualmente distintos do que o próprio Spielberg já trabalhou. Pelo contrário: em matéria alienígena, na verdade, é um filme tão familiar que, ao chegar no cerne da questão, evidencia que o seu foco nunca foi especular respostas. A proposta é, novamente, incitar reflexões sobre a crença no impossível, na possibilidade de comunicação entre facções opostas e na incerteza do comportamento humano em relação ao desconhecido.
Ao longo de duas horas e meia, a saga de perseguição é pontuada por personagens olhando maravilhados para algo ou para alguém. As expressões de fascínio diante do fantástico sempre foram marca registrada do realizador, mas “Dia D” leva isso a um nível quase conceitual.
À medida que Maggie se torna a chave do mistério, a importância desse olhar deslumbrado, filmado com luzes intensas, se revela exatamente aonde o filme quer chegar. E poucas atrizes segurariam o peso de diálogos francamente cafonas com tanta emoção e convicção quanto Emily Blunt.
“Dia D” tem um contraste proposital entre soluções inocentes, que beiram o conto de fadas, e retratos fidedignos do clima de instabilidade e violência que paira sobre o mundo. Essa dicotomia rende pelo menos duas sequências de ação eletrizantes que costuram o grande quebra-cabeça da história. Uma delas, envolvendo um carro e um trem, está entre as mais inspiradas da filmografia recente do diretor. Há, em contrapartida, momentos de humor bem infantilizados, com vilões caricatos batendo literalmente o rosto contra a parede.
Há décadas que elogiar a beleza estética de uma produção de Spielberg é cair na redundância, mas este seu retorno a uma iconografia que ele mesmo eternizou tantas vezes tem um apreço emocional bastante específico, impossível de negligenciar.
“Dia D” pega carona no espírito do tempo e convida o espectador a se admirar novamente com o que passou a ser encarado com cinismo. Seu manifesto pela capacidade das pessoas de pararem um segundo para se entenderem, olhando juntas uma única tela, soa ingênuo, mas inequivocamente oportuno. Sua fé é, sobretudo, no cinema.