Ação enlouquecida e sem freios do sul-coreano ‘Hope’ chacoalha o Festival de Cannes
Experiência intensa e desdobramentos surpreendentes de 'Hope' dividiram opiniões e se tornaram o principal assunto da competição pela Palma de Ouro em Cannes
CANNES - Em um ano sem a presença de grande produções hollywoodianas e com uma competição que já acumula grandes decepções, um filme como o sul-coreano "Hope" é um acontecimento na 79ª edição do Festival de Cannes. Dirigido por Na Hong-jin (do elogiado terror "O Lamento", de 2016), o filme é uma ambiciosa montanha russa de emoções que vai do mistério de horror até a ação mais ensandecida e sem freios que se possa imaginar.
Entregar qualquer sinopse minimamente detalhada pode estragar a experiência, que deve polarizar opiniões quando estrear no circuito comercial da mesma forma como dividiu em sua antecipada estreia em Cannes no último domingo (17). No Brasil, ainda não há data de estreia confirmada para o filme.
"Hope" se passa em uma zona rural da Coreia do Sul que parece ter sido — e ainda estar sendo — destruída por um animal misterioso. Que animal será esse? Será realmente um animal? Será apenas um, de fato? Acompanhando um grupo de policiais e, em seguida, um núcleo de caçadores em busca de desvendar o mistério, o longa de 2h40 se transforma mais de uma vez, e sempre em algo ainda mais inacreditável, grandioso e bizarro do que antes.
Pode-se dizer, mantendo preservada a essência do que está em jogo aqui, que "Hope" possui uma das sequências de ação mais intensas e magnetizantes em anos. Toda a primeira hora do filme de Na Hong-jin é contada praticamente em tempo real e mantém o espectador na beira da poltrona por todo esse tempo sem sequer revelar visualmente o perigo.
Poucos cineastas têm a habilidade de manobrar ação nessa escala de gigantismo por uma duração tão extensa. E, como também é de se esperar em um caso como este, mesmo um mestre da encenação como Na Hong-jin não consegue manter a sensação de frescor na tela por toda essa longa projeção. O milogo de "Hope" possui algumas repetições que se, por um lado, arrancam gargalhadas da plateia, por outro, esticam uma corda frágil entre a tensão e o ridículo.
Quando o absurdo é completamente assumido na marca da meia hora final, "Hope" não apenas se liberta de qualquer compromisso com a lógica e abraça o fantástico com um gosto pela artesania de seus efeitos que é, por si, admirável. Só pela forma como se mantém fiel a sua proposta enlouquecida de ação, suspense e fantasia, o trabalho de Na Hong Jin já mereceria reconhecimento.
Dado importante: o presidente do júri, Park Chan-wook, não apenas também é sul-coreano como tem um apreço particular no seu cinema pelo exagero e por narrativas dilatadas. Com a licença do trocadilho, "Hope" dá esperança de que a Palma de Ouro de 2026 seja a mais ousada e divertida das últimas décadas.