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Abertura de Cannes tem sessões especiais, homenagem a Peter Jackson e debate sobre o uso de IA no cinema

Homenagem ao cineasta Peter Jackson, sessão especial de 20 anos do ‘Labirinto do Fauno’, conversa com o júri oficial da competição e debate sobre IA marcam a abertura da 79ª edição do Festival de Cannes

Por André Guerra - Enviado Especial

O cineasta neozelandês Peter Jackson, que dirigiu a trilogia "O Senhor dos Anéis", recebeu a Palma de Ouro honorária pelo conjunto da obra das mãos do ator Elijah Wood

Em clima de céu aberto e muita ventania, o 79º Festival de Cannes, na Riviera Francesa, já está oficialmente em plena atividade. O mais importante encontro cinematográfico da sétima arte conta com cobertura presencial do Diario de Pernambuco, que acompanhou um movimento menor na Avenida Croisette, endereço do Palácio dos Festivais, do que no ano passado, quando o evento contava com a presença de grandes estrelas hollywoodianas. Em 2026, Cannes apresenta uma seleção bem mais voltada ao circuito artístico, com apenas dois representantes do cinema norte-americano na disputa pela Palma de Ouro: “Paper Tiger” e “The Man I Love”.

Entre os destaques do primeiro dia, o diretor neozelandês Peter Jackson, responsável pela icônica trilogia de “O Senhor dos Anéis”, recebeu a Palma de Ouro honorária desta edição. Surpreso com a homenagem por achar que nunca fez filmes para o grande prêmio de Cannes, o realizador teve sua trajetória relembrada em discurso emocionado do ator Elijah Wood, o eterno Frodo da saga da Terra Média. Na ocasião, o cineasta recordou quando apresentou um trecho do primeiro filme da saga no festival há 25 anos, despertando o interesse da crítica e do público para a obra, que se tornou um dos maiores sucessos do cinema.

A celebração de clássicos que mudaram a indústria cinematográfica nas últimas décadas e discursos fortes contra a inteligência artificial (IA) marcaram os primeiros dois dias do evento. Dirigido por Guillermo del Toro, o drama fantástico. “O Labirinto do Fauno”, exibido na competição do festival em 2006 e recordista de aplausos até hoje, foi escolhido para uma sessão especial com uma cópia restaurada e apresentação do próprio cineasta mexicano, vencedor do Oscar de Melhor Diretor e Melhor Filme em 2018 por “A Forma da Água”.

Até hoje referenciado como um dos maiores filmes da década de 2000, o longa, ambientado na Espanha durante a Segunda Guerra Mundial, já elevou o nível de exigência para todas as produções que serão exibidas durante o Festival de Cannes deste ano. Com efeitos que impressionam até hoje e uma cinematografia exuberante, que exala poesia e violência, o filme de Del Toro não envelheceu um dia sequer e talvez tenha se tornado ainda mais relevante nos tempos atuais.

“O cinema salvou minha vida várias vezes e espero que faça o mesmo com vocês”, afirmou o diretor, em uma sessão emocionada. Como tem se tornado costumeiro em suas declarações, ele aproveitou para repudiar o uso de inteligência artificial em filmes. “Dane-se a IA!”, bradou.

JÚRI

O tema controverso voltou à tona durante a coletiva de imprensa com o júri oficial da competição pela Palma de Ouro, presidido pelo cineasta sul-coreano Park Chan-wook. A atriz norte-americana Demi Moore trouxe uma perspectiva diferente sobre a questão, afirmando que a inteligência artificial não é algo contra o qual se possa lutar. “Não temos respostas prontas para isso, mas a IA está aqui entre nós e veio para ficar. O que temos que aprender é como trabalhar e lidar com ela”, disse ela.

Já o presidente do júri, Park Chan-wook, destacou a importância de não separar arte e política. Segundo ele, as duas coisas não podem ser dissociadas. “Acho estranho pensar que arte e política estejam em conflito. Só porque uma obra de arte tem um manifesto político, não quer dizer que seja inimiga da arte”, afirmou. “Ao mesmo tempo, um manifesto político feito sem uma expressão artística forte vira apenas propaganda”, completou.

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Stellan Skarsgård, indicado ao Oscar 2026 de Melhor Ator Coadjuvante por “Valor Sentimental”, brincou sobre sua seleção para o júri: “Finalmente. Ainda bem que não esperaram eu morrer”, disparou o veterano, que esteve no evento na edição anterior com o longa.

PRIMEIRA SESSÃO

A grande cerimônia de abertura contou com a exibição de “A Vênus Elétrica”, fora de competição. Dirigida por Pierre Salvadori, a comédia romântica de época acompanha um pintor em luto que inicia uma relação inusitada com uma artista de circo conhecida pelo truque de um beijo literalmente elétrico. Revelações surpreendentes e um visual pomposo mantêm a atenção da plateia, mas a produção segue a tradição dos longas de abertura do Festival de Cannes de serem mais leves do que a média da mostra principal. Espera-se que, com nomes como Pedro Almodóvar, James Gray, Pawe Pawlikowski e Ryusuke Hamaguchi, a competição esquente a corrida nos próximos dias.