° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

'Mãe e Filho', que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, relembra a força do cinema iraniano

Drama iraniano dirigido por Saeed Roustaee concorreu à Palma de Ouro, 'Mãe e Filho' estreia no Recife; trama explora o sofrimento de uma mulher batendo de frente com seu próprio pai após uma grande tragédia

Por André Guerra

Atuação de Parinaz Izadyar é o grande destaque do filme

Uma enfermeira viúva de 40 anos chamada Mahnaz (vivida por Parinaz Izadyar) está recebendo diversas reclamações pelo jeito rebelde de seu filho, Aliyar (Sinan Mohebi). Seu relacionamento conturbado e a dificuldade de conter os modos do filho assoberbam cada vez mais uma rotina que, em um país cujo clima só cresce na sensação de desespero, parece sempre à beira do colapso.

Em “Mãe e Filho”, longa que foi exibido na competição pela Palma de Ouro do Festival de Cannes 2025 e chega nesta quinta-feira (30) ao Cinema da Fundação, no Recife, o cineasta iraniano Saeed Roustaee, do elogiado “Os Irmãos de Leila” (2022), leva a situação da protagonista a testes impressionantes. Uma grande tragédia muda os rumos do filme completamente e, à medida que a história avança, ele carrega o espectador para relações igualmente complicadas com os personagens.

Semelhante a um dos maiores clássicos do cinema iraniano contemporâneo, “A Separação”, de Asghar Farhadi, “Mãe e Filho” transforma a ambiguidade moral em uma poderosa arma de melodrama. Aqui, no entanto, o teor intenso do acontecimento que muda o jogo dita uma energia muito mais sentimental, que algumas pessoas poderão associar a um estilo mais próximo da telenovela.

A discussão torna-se menos sobre o momento atual do Irã, no entanto, e mais sobre relações entre mulheres e homens dentro do próprio círculo familiar, já que o grande conflito que se desenrola coloca a protagonista em oposição ao seu pai de modo assustadoramente angustiante.

A vilania do filme é, desse modo, bem mais definida e clara do que no filme citado de Farhadi, em que o registro se atinha a uma crueza do realismo. “Mãe e Filho” foge de um tom possivelmente documental e explora bem o potencial cinematográfico da dor dessa mãe. Ao mesmo tempo, ancorado na atuação de Parinaz Izadyar, o trabalho banca com firmeza o seu apetite melodramático, culminando em uma das cenas finais mais emocionantes do último ano.

Vale lembrar que, assim como ocorreu com o vencedor do prêmio máximo de Cannes, “Foi Apenas um Acidente”, a exibição de “Mãe e Filho” no maior festival de cinema do mundo aconteceu sem a autorização do governo iraniano. O diretor e a produção inteira foram acusados de fazer propaganda para a oposição, levando Saeed à condenação a seis meses.