‘Michael’: Jaafar Jackson arrasa dentro e fora do palco, enquanto o filme desvia de controvérsias
Refazendo o trajeto do Rei do Pop da infância até o auge, cinebiografia ‘Michael’ foge das complexidades do personagem e se atém à grandeza musical do seu legado
A moda das cinebiografias musicais, que atingiu níveis comerciais astronômicos com “Bohemian Rhapsody”, em 2018, ganha um de seus capítulos mais esperados agora, com a ficcionalização da trajetória do ícone definitivo do pop. Em ‘Michael’, que entra em cartaz na quinta-feira (23) nos cinemas brasileiros, o produtor Graham King, mesmo do filme sobre o Queen, lança o desafio de abranger uma parte significativa da tão conhecida história de Michael Jackson, partindo de sua infância, com o grupo The Jackson Five, até o ápice de sua fama, após o estouro de vendas de seus primeiros álbuns solo.
Como se já não fosse complicado o suficiente condensar uma vida — especialmente nessa escala de fama global — em um longa de pouco mais de duas horas, ‘Michael’ ainda tem que andar em cima de uma corda bamba entre a fidelidade biográfica e as obrigações contratuais. O projeto, que cobre apenas a primeira metade da vida do cantor, possui várias amarras de liberdade criativa. Dados os gigantescos custos de produção (estimados em US$ 155 milhões), além da distribuição e marketing, a intenção é, naturalmente, alcançar o maior número possível de pessoas e agradar os milhões de fãs espalhados pelo mundo. E certamente o fará.
Quem interpreta Michael é Jaafar Jackson, sobrinho do Rei do Pop e filho do cantor e baixista Jermaine Jackson, um dos membros originais do The Jackson Five. Além da vantagem biológica, o ator, estreante no cinema, incorpora a voz e os trejeitos do artista com uma fluidez que escapa da armadilha comum de uma simples imitação. Além de cantar e dançar, exprime muito bem em tela a tão fascinante dicotomia entre a retração, a timidez e o modo misterioso do astro e sua necessidade inerente de ser e se provar o maior e mais intocável ícone musical que já existiu.
O mesmo não pode ser dito sobre Colman Domingo, que interpreta Joseph Jackson, pai de Michael, por anos também seu empresário e grande antagonista da história. O personagem verídico (falecido em 2018, nove anos depois do filho), foi notório pela violência física e psicológica com que tratava os filhos, mas tanto a caracterização do ator quanto o texto não lhe conferem qualquer complexidade ou senso verdadeiro de intimidação. Igualmente retratada em uma nota só, Katherine Jackson, a mãe (vivida por Nia Long), tem o único propósito, no roteiro, de expressar repetidas vezes sua consternação pelo jeito agressivo do seu marido.
Quem dirige “Michael” é Antoine Fuqua, célebre pela parceria com Denzel Washington em filmes de ação como “Dia de Treinamento” e a trilogia "O Protetor". A abordagem do cineasta não é desorganizada como a de Bryan Singer em “Bohemian Rhapsody”, nem tem a energia alucinada que Baz Luhrmann impõe a “Elvis”, por exemplo, mas é, a título de ritmo e exposição, ao menos, mais disciplinada do que a dos dois. O roteiro, assinado por John Logan, não fornece praticamente nenhuma informação amplamente célebre sobre Michael Jackson, mas encontra bons respiros para fazer com que as cenas de show se destaquem dramaticamente.
Para toda a inexistência de nuances ou sutileza na construção dramática do protagonista (retratado como um ser de pureza inalcançável) e das figuras que o cercam (os irmãos mal ganham vida ao longo da projeção), “Michael” compensa na reprodução cuidadosa de passagens essenciais para a compreensão de seu fenômeno. A sequência de recriação do icônico clipe de “Thriller” — que quebrou barreiras do formato e se tornou um divisor de águas na história da cultura pop — é um desses momentos que priorizam a contemplação dessa tão poderosa iconografia e dão o tempo necessário para o espectador se envolver com a música sem interromper a estrutura do longa.
A decisão de segurar boa parte da história para uma continuação pode gerar alguma surpresa. Tendo em vista, porém, que esse tipo de cinebiografia busca mais um resumo catártico de homenagem do que uma versão subjetiva e desafiadora dos fatos, é apropriado que os produtores deem o tempo necessário para o assunto se estabelecer. Ainda assim, mesmo dentro de uma estratégia comercial cheia de restrições, faz falta, aqui e em outras cinebiografias musicais, um olhar verdadeiramente humano sobre essas figuras tão difíceis de decifrar.
Reforçar o alcance de seu impacto é um caminho que pode render grandes momentos, como é o caso daqueles que revivem músicas como "Don't Stop Til You Get Enough", "Billie Jean", "Human Nature" e "Bad". Mas essa abordagem, em última análise, deixa o público ainda mais distante de realmente entender os seus ídolos.