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Projeto leva oficinas de literatura para cinco comunidades quilombolas de Pernambuco

O projeto "Literatura nos Quilombos" começa a circular neste domingo (19), quando leva uma oficina de literatura para o Quilombo Caldeirãozinho, em São Bento do Una. Em seguida, a iniciativa segue por mais quatro comunidades quilombolas

Por Allan Lopes

Participantes desenvolvem textos autorais a partir de memórias e vivências durante oficina do projeto Literatura nos Quilombos

A democratização do acesso à literatura e o fortalecimento de territórios quilombolas orientam o projeto “Literatura nos Quilombos”, que desembarca neste domingo (19) no Quilombo Caldeirãozinho, em São Bento do Una, no Agreste pernambucano.

A atividade integra uma jornada formativa sobre escrita criativa que irá percorrer cinco comunidades tradicionais do estado ao longo dos próximos meses, após ter começado em Belo Jardim, no Quilombo Barro Branco, valorizando suas vivências e saberes ancestrais como fontes legítimas de criação artística.

A oficina será conduzida pelo poeta, compositor e produtor cultural David Biriguy, que convida os participantes a compartilhar memórias de infância, histórias de familiares ou relatos sobre a comunidade. Muitas dessas experiências se cruzam em temas como o trabalho infantil e a falta de acesso à escola.

“Teve gente que só conheceu o pai aos 40 anos. É um retrato pesado, mas muito fiel à realidade dessas pessoas”, afirma o idealizador, em entrevista ao Diario. Ao fim de cada encontro, o material produzido dá origem a um livro coletivo, elaborado de forma artesanal, da escrita à diagramação, no próprio dia da atividade.

Com raízes quilombolas, David gestou a ideia da iniciativa a partir da realização do festival “Terreiro de Artes: Ilê Convida” no próprio Quilombo Barro Branco. Embora já tenha ministrado oficinas literárias em diversas cidades do Brasil, esta tem sido uma das experiências mais desafiadoras. “A maioria das pessoas não é habituada com a escrita, algumas até analfabetas. Mesmo assim, conseguimos envolver todo mundo”, conta o escritor.

Depois da passagem por São Bento do Una (19/04), “Literatura nos Quilombos” segue para o Quilombo Negros do Osso em Pesqueira (26/04), o Quilombo Castainho em Garanhuns (03/05) e, por fim, o Quilombo Catucá em Camaragibe (23/05).

Para isso, ele trabalha com autores como Conceição Evaristo, Elisa Lucinda e Carolina Maria de Jesus, cujas produções se conectam com o cotidiano das comunidades quilombolas. Os textos são discutidos coletivamente e servem de ponto de partida para exercícios de escrita.

Já para quem não escreve, a oficina propõe outras formas de participação. “A pessoa faz um relato oral e eu transcrevo”, explica David. "Se ali aparecem elementos literários, ótimo. Mas não é o mais importante. O principal é o que elas têm a dizer”, completa.

Ao atuar em quilombos, territórios historicamente negligenciados em diferentes frentes, o projeto amplia o acesso à produção cultural e fomenta a geração de renda ao desenvolver a autonomia dos participantes na produção artesanal de livros, além de ter uma contrapartida financeira para cada comunidade. “Levar essa experiência é muito gratificante, porque dialoga diretamente com o que acredito: no poder transformador da palavra e da literatura, e na capacidade que temos de intervir nessas realidades”, celebra David.