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Autor da Perna Cabeluda, Raimundo Carrero terá coluna semanal no Diario sobre cultura brasileira

Raimundo Carrero retorna ao Diario de Pernambuco após 34 anos para coluna semanal. O jornalista e escritor discutirá assuntos em alta na cultura brasileira, em particular na literatura

Por André Guerra

Coluna de Raimundo Carrero será veiculada nas edições de fim de semana do Diario, a partir deste sábado (18)

Era novembro de 1969 quando o Diario de Pernambuco recebia um estagiário que viria a fazer história. Raimundo Carrero, escritor e jornalista pernambucano nacionalmente reconhecido como um dos mais importantes de sua geração, passou dois anos aprendendo na redação do jornal antes de começar a trabalhar como crítico literário e, anos mais tarde, como editor-chefe. Em fevereiro de 1992, quando fez uma viagem para um congresso de literatura nos Estados Unidos, ele deixou o veículo e, agora, mais de 30 anos depois, anuncia seu retorno com uma coluna semanal, que será veiculada na edição de final de semana, aqui no caderno Viver.

Ele revela que sua coluna será dedicada a assuntos diversos que fervilham no mundo cultural brasileiro e pernambucano, sobretudo no universo da literatura. “Será uma excelente oportunidade para colocar em debate as ideias culturais que movimentam o país, que são muitas e jamais se esgotam. Pelo contrário: alguns assuntos internacionais sacodem ainda mais as nossas conversas, e é inevitável, eventualmente, debatê-los também”, afirma Carrero, explicando ainda que os temas serão maleáveis, abertos a mudanças e reflexões.

Dono de obras influentes e premiadas que marcaram diferentes gerações, Carrero foi um dos principais autores do Movimento Armorial, capitaneado por Ariano Suassuna a partir de 1970. Seu romance de estreia, “A História de Bernarda Soledade: A Tigre do Sertão” (1975), tornou-se um dos pontos mais célebres de sua carreira ao narrar a história de uma mulher sertaneja que desafia o coronelismo e impõe sua vontade. Outros livros, como “Viagem no Ventre da Baleia” (1987), “Maçã Agreste” (1989), “Sinfonia para Vagabundos” (1992), “O Amor Não Tem Bons Sentimentos” (2000) e “O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo” (2015), inspiraram autores que se aventuraram pelo universo literário das últimas décadas.

Em 1975, ao ouvir uma pitoresca história contada por um morador de São Lourenço da Mata, que afirmou categoricamente que sua esposa havia sido atacada por uma perna cabeluda, Carrero teve a inspiração para escrever o que se tornaria uma das lendas urbanas mais conhecidas do Recife — e, após o fenômeno internacional de 'O Agente Secreto', que concorreu em quatro categorias no Oscar, também do Brasil e do mundo.

“Mesmo antes de todo esse acontecimento envolvendo o filme de Kleber [Mendonça Filho], eu já ouvia muitas coisas sobre essa época, inclusive reclamações. As pessoas vinham falar comigo irritadas: ‘como você escreve uma coisa dessas? Está todo mundo assustado aqui em casa’. Essa foi uma frase recorrente”, relembra o escritor. “Os professores da época tinham o péssimo hábito de inventar histórias para assustar ou castigar os alunos, então soube de muitas situações em que a perna era usada também para ameaçar as crianças: ‘se você não se comportar, eu te mando para o banheiro para encontrar com a perna’”.

A veiculação da criatura fantástica, que assombrou o imaginário recifense por tantas décadas, fez parte de um contexto específico de censura aos órgãos de imprensa por parte da ditadura militar, e Raimundo Carrero salienta que não deve haver mais pernas cabeludas narradas em sua nova coluna: “Aquilo foi uma época diferente; os jornalistas trabalhavam sob a pressão do censor, que perguntava o que a gente estava escrevendo. Agora, alguns podem pensar: o que esse homem pode inventar? Não quero tirar o sono de ninguém mais”, brinca.

Ele celebra: “Estou muito feliz com essa coluna, bastante entusiasmado para compartilhar várias ideias com o leitor. Minha história no Diario é gigantesca, tanto de presença quanto de ausência. Posso dizer, sem vaidade nenhuma, que será um retorno triunfal”.