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‘A Voz de Deus’, sobre crianças pregadoras, tem pré com debate no Cinema do Museu nesta terça (14)

Documentário 'A Voz de Deus', de Miguel Antunes Ramos, ganha sessão de pré-estreia no Cinema da Fundação (Museu), nesta terça (14), com a presença do diretor e de Daniel Pentecoste, um dos retratados pelo filme

Por André Guerra

Longa examina a relação entre fé, infância e fama

Quando o diretor Miguel Antunes Ramos começou os primeiros registros do seu documentário “A Voz de Deus”, que se debruça sobre a fé evangélica a partir da perspectiva das crianças pregadoras Daniel Pentecoste, hoje com 17 anos, e João Vitor Ota, de 16, o Brasil começava a viver duras transformações sociais e políticas. Boa parte dessas mudanças foi incorporada de forma definitiva à própria narrativa do filme, que ganha uma sessão de pré-estreia no Recife hoje, no Cinema do Museu, às 19h30, com a presença do cineasta e de um de seus personagens principais.

Gravado entre 2017 e 2022, “A Voz de Deus” acompanha os protagonistas tanto nos cultos quanto em seus ambientes domésticos, revelando a dinâmica familiar, crenças políticas, ideais religiosos e elementos mundanos de seu cotidiano. Daniel Pentecoste, que já chegou a ser o mais famoso pregador mirim do país, enfrentou o complexo processo de declínio após a superexposição tão precoce, precisando encarar um futuro cheio de incertezas pessoais e profissionais.

“A principal alteração que a gente viu na difusão desses assuntos foi realmente de ordem tecnológica. Na época de Daniel, a força das redes sociais na propagação dos discursos não era nem de longe como é agora, em um momento em que também se discute muito a adultização das crianças”, salienta Miguel Antunes em entrevista ao Diario. Ele aponta ainda que um dos objetivos do filme é debater a fé evangélica dentro de uma lógica da classe trabalhadora: “Não se fala suficientemente no Brasil sobre como essas coisas estão atreladas e foi essencial para nós trazer isso em ‘A Voz de Deus’”.

O diretor revela ainda que, apesar do recorte fechado nos dois personagens, eles também levantam distintos olhares e reações ao fenômeno analisado pela obra cinematográfica. “Observando como o nosso filme também se transformou nesse processo, é interessante perceber que cada um dos dois seguiu por um caminho distinto. Enquanto Daniel seguiu uma trajetória progressista, João Vitor, que é um fenômeno bem atual, segue por um caminho mais conservador”, revela. “E, ainda assim, os dois gostaram muito do resultado, que julgamos ser um retrato sensível e fidedigno desse assunto, sem o uso de estereótipos tão recorrentes”.

Lançado no 14º Olhar de Cinema — Festival Internacional de Curitiba, onde venceu o prêmio de Melhor Montagem, “A Voz de Deus” vem fazendo um circuito forte de festivais, passando pelo CineBH, pela Mostra de São Paulo e pelo Festival de Brasília. Considerando o ano eleitoral e as discussões sobre a influência da religião como instrumento político, algo debatido também no documentário “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, o filme deve suscitar discussões ainda maiores após a estreia comercial, marcada para a próxima quinta-feira, dia 16.

Daniel Pentecoste destaca como a relação entre ele e o diretor, construída na confiança ao longo de tantos anos de filmagem e, posteriormente, de lançamentos, foi essencial para levantar os debates em torno do longa. “Buscamos justamente uma aproximação, uma tentativa de entendimento sobre o pertencimento, mais do que um tipo de julgamento moral sobre a fé das pessoas”, salienta. “São temas bastante polêmicos, sim: infância, religião, política. Mas é bonito pensar que temos muito mais convergências, no final, do que divergências. Não queremos relativizar nada, mas ajudar a construir pontes onde muitas vezes as pessoas buscam barreiras.”