Novo disco de BUHR funde ritmos e traduz processo de reconhecimento da artista como não-binária
BUHR lança, nesta sexta-feira (10), o disco "Feixe de Fogo" nas plataformas digitais, onde reúne vivências íntimas e musicais, que passam pelo seu reconhecimento como pessoa não-binária, levando a mudança de seu nome depois de quase 30 anos assinando como Karina Buhr
Ao ser pronunciado em voz alta, o nome pode soar como um susto. Mas o que emerge de BUHR é, na verdade, um dos sons mais potentes da música contemporânea brasileira. Desde o ano passado, ela deixou o prenome Karina para trás e passou a assumir no sobrenome sua identidade como pessoa não-binária.
O movimento se consolida no álbum “Feixe de Fogo”, que estreia na sexta-feira (10) nas plataformas digitais. Apesar da mudança nominal, a nova fase acentua a força de sua trajetória musical, agora também expressa em caixa alta.
O trabalho reúne vivências íntimas e musicais da baiana radicada no Recife, atravessadas pela percepção de que o reconhecimento como pessoa não-binária se constrói coletivamente, e não de forma isolada.
Com direção e produção musical assinadas por BUHR e Rami Freitas, “Feixe de Fogo” marca um desdobramento desse processo. “Quanto mais a gente fala sobre isso, mais outras pessoas falam, o que gera identificação e compreensão, ajudando a romper essa ideia binária do mundo, de homem e mulher, que causa tanta coisa”, enfatiza a cantora em entrevista ao Diario.
BUHR revela que as plataformas digitais solicitaram a alteração do nome dela nos trabalhos anteriores, alegando que, do contrário, o sistema poderia duplicar seus perfis ou embaralhar os catálogos. A cantora, porém, recusou. "Por quase 30 anos, eu assinei como Karina Buhr. Isso faz parte da minha história. Vai ter Karina em alguns lugares, e BUHR em outros”, afirma. Burocracias à parte, o que se ouve é a continuidade e a consolidação de uma artista convicta do que faz.
Com onze faixas autorais, o disco é como uma turbina em chamas, impulsionada pelas andanças, dores e angústias que BUHR acumulou como transeunte das ruas desde o começo da carreira, em grupos de maracatu como Piaba de Ouro e Estrela Brilhante. “Gosto de andar e ver pessoas. Mas desgosto do quanto as ruas estão virando espaços privatizados”, afirma.
Em “Ânsia”, esse discurso se apresenta na narrativa de uma jornada caótica pela metrópole. “Sem salto nenhum / Só mergulho no asfalto / Cabeça de entulho”. No desfecho, a personagem desloca o olhar para si e reconhece o próprio valor. “Nem tudo te espera / Sobre mim / E agora é sobre mim”, canta.
Portanto, o disco traduz um processo de autoconhecimento já amadurecido, marcado por deslocamentos e transformações, tanto físicas quanto íntimas. Gravado durante dois anos entre Fortaleza, Sobral, Salvador, São Paulo e Recife, “Feixe de Fogo” incorpora experiências ligadas às cidades, que atravessam a trajetória de BUHR, e faz desse trânsito um elemento central da sonoridade, com participações de músicos desses e de outros territórios, como Russo Passapusso, vocalista do Baiana System, e as cantoras Josyara e Negadeza. “Vivo com a mala na mão”, diz a cantora.
No trajeto do disco, a mala vai se enchendo de ritmos. As 11 faixas alternam e combinam entre si elementos de rock e reggae com sintetizadores, guitarras e tambores em arranjos que se fundem e se tensionam.
Com tantas direções possíveis, BUHR prefere não catalogar o trabalho. “Existe, sim, um elemento pop, mas é difícil rotular, porque cada faixa aponta para um lugar”, argumenta. Base de sua formação, a percussão é o eixo principal da composição ao lado da voz, com o uso do tambor. “Mesmo quando não aparece na gravação ou no show, é a percussão que sustenta a música”, conta.
Lançamento ao vivo
Depois do lançamento, "Feixe de Fogo" continuará circulando, desta vez nos palcos. O álbum será apresentado ao vivo no dia 24 de abril, no Teatro do Parque, e depois segue para outras cidades. A banda será formada por Rami Freitas (bateria e sample) e Suzyana Kethel (baixo), ambos músicos que participaram das gravações do disco.