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Maestro Spok solta a voz e celebra suas raízes em disco inédito que vai do aboio ao rock

Autoridade do frevo, Maestro Spok agora experimenta gêneros musicais como o maracatu, aboio, rock e rap no seu novo disco de inéditas, "Raízes", em que também se aventura como cantor

Por Allan Lopes

Maestro Spok se aventura como cantor em "Raízes", seu novo disco de inéditas

A relação entre o frevo e o Maestro Spok é quase umbilical. Mas, ao se despir do ritmo, há outro Spok. Não o maestro, mas o pequeno Inaldo que ouvia Jackson do Pandeiro com o pai. Não o saxofonista, mas o músico que sonhava com as palavras. E, sobretudo, o herdeiro de uma ancestralidade africana. Esse Spok, até então desconhecido, aparece em “Raízes”, seu álbum recém-lançado que já está disponível nas plataformas digitais.

Antes de chegar ao público, a revelação de suas raízes veio para o próprio Spok. Ao submeter o próprio DNA a um teste, ele descobriu que sua linhagem materna atravessou o Atlântico vinda do Camarões, mais especificamente da etnia Tikar. "Isso mexeu totalmente com a minha vida", destaca ele em entrevista ao Diario.

Finalmente, ele começaria a trilhar um caminho que desejava desde muito antes de saber tocar qualquer instrumento de sopro. “A poesia sempre esteve dentro de mim. Tudo pelo desejo de ser repentista”, explica.

“Raízes” tece um diálogo inédito para o músico, isso é fato. Mas o estranhamento, se existe, não passa da abertura. É tudo tão íntimo e honesto que a estranheza cede lugar à delicadeza. Faixa a faixa, o público conhece esse Spok que compõe e canta, percorrendo um território híbrido onde se encontram galope à beira-mar, aboio, rock, maracatu e rap.

As letras do disco transitam entre espiritualidade e memória, com homenagens a Xangô e a símbolos dos terreiros, os quais Spok transforma em ambiente de reflexão e reverência às suas próprias origens.

Nesse processo, contou com a assistência do Grupo Bongar, que participa da faixa-título. “Às vezes, o ritmo que eu imaginava para um orixá não era aquele. Os meninos me mostravam o caminho certo. Me diverti e aprendi muito”, conta.

Companheiros históricos como Lenine, Maciel Melo, Chico César e Zeca Baleiro também participam e acrescentam o tom pessoal ao disco, assim como a sua filha Ylana. “Todos eles têm uma importância muito grande na minha vida e no que me formou até hoje”, celebra Spok.

Ainda que vários parceiros de Spok estejam presentes, “Raízes” tem personalidade própria. Mérito do artista, que assume o protagonismo da musicalidade e da sua trajetória. “Não é um trabalho igual a nenhum deles. Isso me deixa muito feliz. Eu enxergo o que é possível. Eu trabalho com as minhas verdades. O que me fortalece é ser eu”, exalta o artista.

Coeso do início ao fim, o álbum se destaca em faixas como "Bela África" (feat.Chico César) e "Kaô" (feat.Lenine) e o encerramento em grande estilo com "Aboio de Um Vaqueiro" (feat.Maciel Melo), que entrelaça repente e rock.

Se o exame de DNA abriu uma porta, “Raízes” mostrou que há muitas outras adiante. “Agora não vou mais parar”, promete Spok, que já vislumbra levar o disco ao palco. Uma missão prazerosa, mas também desafiadora, para quem está trocando o saxofone pelo microfone.

"Venho treinando essa parte de cantar e me comunicar com o público", diz. O público também vai precisar se acostumar, mas ele já está preparado para os inevitáveis pedidos de frevo. “Quando acabar o show, eu posso tocar os clássicos para eles”, garante.