Da Portela a Michael Jackson: documentário mostra como o percussionista Paulinho da Costa renovou o pop
Disponível na Netflix, o documentário "The Groove Under the Groove" evidencia a importância do percussionista brasileiro Paulinho da Costa para a criação de sucessos de nomes como Michael Jackson, Madonna e Stevie Wonder
A influência do Brasil na cultura global transcende o futebol. Na música, ritmos e instrumentos brasileiros foram fundamentais para a construção de sucessos mundiais como "Thriller", de Michael Jackson, e "La Isla Bonita", de Madonna, graças ao percussionista Paulinho da Costa, de 77 anos.
Mas, enquanto Pelé virou sinônimo de genialidade, seu nome passou décadas restrito às letras miúdas dos encartes. Agora, enfim, Paulinho sai da contracapa e é colocado no centro do palco pelo documentário “The Groove Under the Groove”, de Oscar Rodrigues Alves, já disponível na Netflix.
Além do apagamento recorrente de artistas que não ocupam o papel de protagonistas, Paulinho, por sua própria natureza, nunca fez questão da fama. Tanto que o diretor levou onze anos entre o primeiro contato para convencê-lo a contar sua história e a finalização da obra. “Eu não acho estranho o fato de o Paulinho não ser conhecido. Eu acho ruim”, aponta Oscar.
Por isso, a homenagem em vida, mais do que merecida, torna-se um passo necessário para que seu legado ocupe o lugar que lhe é devido na música brasileira e mundial. “É muito bom que os brasileiros estão podendo conhecê-lo”, celebra.
Nascido no Rio de Janeiro, Paulinho da Costa começou na Ala Jovem da Portela, onde foi ritmista e passista, incorporando a base rítmica que levaria na sua trajetória. Mais tarde, integrou a banda de Sérgio Mendes e já era um show à parte com a sua dança e percussão.
Em 1974, deixou o grupo e seguiu para Los Angeles, onde se tornaria um dos percussionistas mais requisitados da indústria. Os estúdios da cidade eram dominados por percussionistas latinos, principalmente porto-riquenhos e cubanos. Paulinho trouxe uma abordagem diferente, com levadas genuinamente brasileiras, e renovou o som que embalaria a música pop dali em diante.
Artistas e produtores do mais alto calibre com quem ele trabalhou, como Quincy Jones, Zeca Pagodinho, George Benson, Ray Parker Jr, Alcione e Lalo Schifrin ajudam a contextualizar, no documentário, a dimensão de sua atuação em alguns dos maiores sucessos da indústria internacional.
"O grande barato desse filme é essa feijoada que o Paulinho promoveu, reunindo pessoas tão improváveis de aparecerem juntas”, comenta Oscar. Todas elas, revela ele, abriram mão do cachê e compareceram pela admiração ao músico. Elton John, Stevie Wonder e Miles Davis são outras lendas, entre mais de 900 artistas, que também se renderam ao seu groove.
Se todos esses nomes já compõem um mosaico impressionante, a parceria que talvez melhor sintetize a grandeza do percussionista é aquela que não pôde estar no filme: Michael Jackson. Tudo começou por acaso, dentro de um avião, na volta de uma turnê de Paulinho com Sérgio Mendes no Japão. Michael, ainda como integrante do The Jacksons, o reconheceu e fez questão de se apresentar.
A colaboração se estendeu por mais de 40 faixas – entre elas, “Wanna Be Startin' Somethin'’, na qual o carioca gravou um solo de cuíca. “Michael já chega com aquela música dançante e astral. E ele entra com o seu groove, acrescentando ainda mais”, afirma o diretor. Michael, mais tarde, enviou um e-mail o chamando de "o melhor percussionista do mundo”.
Entusiasta da percussão desde a infância, Oscar Rodrigues cresceu comprando discos e caçando o nome de Paulinho nos encartes. Para ele, o que o percussionista colocava nas músicas era o que dava vida a elas. "Não me lembro de um caso sequer em que o Paulinho tenha colocado algo em uma música e o produtor não tenha usado na mixagem final”, diz.
Com mais de 6 mil gravações em seu currículo, é quase certo que você, leitor, já tenha ouvido o seu groove sem saber. “Se bobear, a gente ouve Paulinho da Costa mais de uma vez por dia, seja no rádio, em um comercial ou alguma música”, conclui o diretor.