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‘Nuremberg’ reduz força histórica do maior julgamento do século a uma trama cheia de atalhos

Drama histórico ‘Nuremberg’ resgata o julgamento dos nazistas, pós Segunda Guerra, a partir da relação entre o psiquiatra Douglas Kelly e Hermann Göring, sucessor de Hitler

Por André Guerra

Russell Crowe interpreta o militar alemão Hermann Göring, peça principal no maior julgamento do século 20

Um dia antes da Alemanha se render, em maio de 1945, o militar Hermann Göring, comandante-em-chefe da força aérea e considerado o segundo na sucessão de Adolf Hitler, se entrega e é levado da Áustria. Começa a criação de um tribunal internacional para julgar os líderes nazistas e expor os horrores cometidos por eles durante a Segunda Guerra Mundial.

As potências vitoriosas — Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França, que compunham o grupo dos Aliados — conduziram o julgamento de 24 lideranças no Palácio da Justiça da cidade alemã de Nuremberg. O processo durou até outubro de 1946, e o resultado foi não apenas um marco para o direito internacional, como também um dos mais definitivos confrontos da história com ela mesma.

Em cartaz nos cinemas comerciais, o filme “Nuremberg” é uma adaptação do livro “O Psiquiatra e o Nazista”, escrito pelo jornalista norte-americano Jack El-Hai e publicado originalmente em 2013, e segue a direção do texto-base, focando menos no tribunal e mais na relação construída entre o psiquiatra Douglas Kelly (vivido por Rami Malek) e Göring (Russell Crowe). Havia grande interesse, por parte dos Aliados, em compreender a mentalidade nazista, o que levou vários médicos ao local para entrevistar os líderes presos — e, sendo o representante de mais alto posto hierárquico do regime e uma autoridade incrivelmente carismática entre os demais líderes, Göring sempre despertou incontáveis pesquisas e discussões.

Tanto nas transcrições do julgamento quanto nas entrevistas, é possível perceber a petulância do militar ao ser interrogado, seu jeito impositivo, suas variações de humor e sua impassível racionalidade. Ao mesmo tempo que jamais aceita ser responsabilizado pelas barbaridades cometidas nos campos de concentração, Göring não demonstra qualquer sentimento de empatia ou arrependimento, o que o torna uma figura difícil de decifrar e intrigante para Kelly, e, por consequência, para o público.

É compreensível que o diretor James Vanderbilt — mais conhecido pelo roteiro de “Zodíaco” e cujo único crédito anterior como cineasta é o dramapolítico “Conspiração e Poder”, de 2015 — tenha optado por uma abordagem de escala menor e acessível. O principal problema de “Nuremberg” é que o tempo dedicado ao julgamento em si, sobretudo à participação dos países Aliados na consolidação de tantos marcos históricos, é minimizado em função do complexo vínculo estabelecido entre Hermann Göring e Douglas Kelly.

É verdade que o assunto abre espaço para inúmeros recortes, mas é difícil explicar como quase 2h30 de duração encontram tempo para conversas de admiração intelectual mútua entre os protagonistas, mas resumem o impacto do tribunal a duas sequências-chave. Uma delas, na qual são exibidos chocantes registros reais dos campos de extermínio, é excelente. A outra, no desfecho, conta com participações de grandes atores, como Michael Shannon, no papel do jurista americano Robert H. Jackson, e Richard E. Grant, como o promotor britânico Sir David Maxwell-Fyfe.

A espinha dorsal da narrativa, no entanto, é duramente afetada pelo protagonismo de Douglas Kelly. Pouco é mostrado sobre a pesquisa em si do psiquiatra e, em vez disso, o roteiro seleciona um compilado de situações pessoais que pouco adicionam à dimensão do que está em jogo. James Vanderbilt desperdiça a força da história em prol de uma humanização palatável de Göring, que revela um Russell Crowe apropriadamente pesado e imponente.

Apesar da excelente reconstituição de época, da música evocativa de Bryan Tyler e da frieza da cinematografia assinada pelo veterano Dariusz Wolski, “Nuremberg” fica devendo do ponto de vista da imersão dramática. O que resultou em um drama protocolar trata, na verdade, de um divisor de águas do século, que trouxe à luz algumas das maiores barbaridades já cometidas pela humanidade para que jamais sejam esquecidas.