Na comédia ‘O Velho Fusca’, carro restaura a relação da nova geração com o passado da família
Em ‘O Velho Fusca’, já em cartaz nos cinemas, a vontade de um neto de restaurar o veículo esquecido do avô se torna metáfora da reconexão familiar
O sensível Junior (vivido por Caio Manhente) transforma o Fusca abandonado de seu avô ranzinza (Tonico Pereira) em um objeto de desejo. O encontro da energia sonhadora do jovem com as certezas imutáveis do veterano começa a despertar memórias profundas, e o carro esquecido pode, por sua vez, tornar-se um elo de união para uma família completamente quebrada por brigas antigas.
Esse ponto de partida da comédia dramática “O Velho Fusca”, dirigida por Emiliano Ruschel e escrita por Bill Labonia, já em cartaz nos cinemas comerciais, expõe uma grande alegoria da restauração afetiva entre duas pessoas de diferentes gerações, um mote clássico do cinema. Em entrevista ao Diario, o cineasta destaca a importância que o Fusca tem no imaginário brasileiro e na consolidação de um ideal de afeto: “É um carro que faz parte da história brasileira e mundial de maneira muito enraizada, principalmente pela sua popularidade durante a década de 1970. Aqui, ele funciona muito como um símbolo dessas lembranças analógicas, de uma época em que íamos visitar nossos parentes, que sempre tinham um fusquinha”, explica.
A narrativa ganha ainda outras dimensões a partir da presença de personagens vividos por Cleo Pires, Danton Mello, Giovanna Chaves, Christian Malheiros, Yuri Marçal, Rodrigo Ternevoy, Leandro Lucca e Priscila Vaz. O Rio de Janeiro como cenário é uma opção praieira que busca a atmosfera solar almejada pela encenação de Emiliano Ruschel, gaúcho de nascimento, mas que morou durante sete anos na capital carioca. “Tivemos uma equipe incrível fazendo esse filme. O cenário se tornou também um personagem, assim como o trabalho musical, com músicas de Jorge Aragão, Péricles, Xande de Pilares e tantos outros”, acrescenta o diretor.
O Fusca foi comprado especificamente para o filme e, na ocasião, estava em mau estado de conservação. Seu processo de restauro, portanto, aconteceu de forma realista, junto com a própria trama. “É um símbolo que representa a conexão com uma memória afetiva, como se estivéssemos com a presença desse carro buscando algo que se perdeu. Uma lembrança do que um dia fomos, de quando o mundo digital não era tão imperativo”, aponta ainda Emiliano.
Durante o bate-papo, o cineasta exalta o momento em que o filme entra em cartaz, citando a importância da experiência coletiva, sobretudo no caso da comédia. “É insubstituível essa nossa relação com o cinema, e, justamente depois de vivermos essa fase tão mágica de reconhecimento internacional para a produção brasileira, é maravilhoso estar com um lançamento nacional. Não vejo a hora de termos mais cinemas para que possamos expandir nosso público. Isso gera empregos, diretos e indiretos, gera recursos e ajuda a fortalecer a nossa própria imagem para nós mesmos”, pontua.
Em “Velho Fusca”, essa relação com os carros busca ainda resgatar um ideal romântico tradicional, já que o protagonista deseja intensamente conquistar uma jovem e impressioná-la com o veículo. Louvável que seja essa proposta, por um lado, o filme, por outro, não parece preocupado em questionar vários estereótipos grosseiros que, da maneira como a narrativa se encaminha, soam relativizados e um tanto recreativos. As boas intenções, ainda assim, são evidentes, principalmente na união de gerações que, cada vez mais, encontram tanta dificuldade em estabelecer diálogos em uma era sistematizada e cheia de indiferença.