‘A Graça’ investiga o humor e a melancolia da cadeira da presidência
Dirigido pelo premiado italiano Paolo Sorrentino, 'A Graça' entra em cartaz nesta quinta (19) no Cinema da Fundação e no MovieMax Rosa e Silva
O presidente italiano Mariano De Santis (Toni Servillo) é um viúvo católico que, no final de seu mandato, sofre a pressão de decidir sobre o indulto a dois condenados por crimes brutais. Os casos são conduzidos por sua filha, a jurista Dorotea (Anna Farzetti), e se misturam cada vez mais com suas próprias memórias pessoais, sobretudo da falecida esposa, Aurora.
Apesar da premissa apontar na direção de um drama austero, “A Graça”, em cartaz no Cinema da Fundação e no Moviemax Rosa e Silva, é uma sátira totalmente ficcional, cheia de momentos cômicos e com escolhas musicais bastante contraintuitivas. Dirigido por Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014 por “A Grande Beleza” (também protagonizado por Servillo), o longa traz de volta as imagens suntuosas que marcaram a filmografia do cineasta italiano desde então, que inclui os elogiados “A Mão de Deus” e “Parthenope”.
O humor permeia toda a narrativa de “A Graça”, mas o coração do enredo está no vazio sentido por Mariano pela perda da esposa, de quem descobriu uma traição muitos anos antes. O personagem tem certeza de que o homem que consumou a traição é uma pessoa próxima, criando situações de angústia tão verdadeiras quanto absurdas. Há uma sequência de conversa com o Papa, que sai de moto após dar os últimos conselhos, que está entre as mais divertidas e inusitadas do filme.
O distanciamento da filha é particularmente bem encenado por Sorrentino e, apesar de não ser o centro do drama, é um dos elementos mais comoventes do filme. O tom mantém sua estética classuda, contrastada pela trilha sonora carregada de rap e música eletrônica. Não é incomum que essa brincadeira comece, ironicamente, a perder a graça, principalmente quando a duração se estende para além de duas horas, repetindo alguns dos mesmos truques ao ponto do esgarçamento.
É tanto uma trama sobre a paternidade de Mariano para com sua filha, que conhece bem menos do que gostaria, quanto sobre o peso de decisões (paternais, por que não?) sobre a nação. Nesse sentido, "A Graça" dialoga menos com tramas melancólicas sobre envelhecimento e mais com a aceitação de se colocar em um lugar de fragilidade, de dúvida, de incerteza.
O diretor enfatiza essa tecla de maneira um bocado pedagógica também, em particular na sequência da caminhada que marca o encerramento. A poética da última imagem flerta com uma previsibilidade narrativa curiosa que ao mesmo tempo em que coloca o longa em um lugar mais domesticado, tira dele uma pose que imperava na primeira metade.
O saldo geral é positivo porque, ao contrário do autoindulgente “Parthenope”, ele transmite a sensação de um movimento sincero da direção em divertir e comover. "A Graça" faz mais jus ao título do que ele mesmo pretende.