° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Em ano de guerra, Oscar traz resultados previsíveis e evita maiores tensões políticas

Com "O Agente Secreto" sem vitórias e "Valor Sentimental" vencedor apenas na categoria internacional, Oscar 2026 não arrisca em narrativas estrangeiras de maior teor político e garante prestígio da produção original norte-americana

Por André Guerra

Vitória de 'Uma Batalha Após a Outra' celebra produção original norte-americana e cinema autoral de Paul Thomas Anderson

Em uma cerimônia que já nasceu histórica para o Brasil, contemplado em quatro categorias com “O Agente Secreto” e em uma com “Sonhos de Trem”, o Oscar 2026 foi marcado por mensagens políticas pontuais, como de costume. Os resultados da premiação, porém, refletem menos a iniciativa de tomar posição clara diante dos tempos de tensão política e mais a necessidade de buscar consensos conciliatórios.

O Oscar é uma premiação reconhecidamente voltada a reforçar os interesses da própria indústria hollywoodiana, dialogando com o espírito de uma Era do cinema e, em diferentes intensidades, respondendo aos principais acontecimentos do mundo. A tentativa de internacionalização da Academia reverberou na presença cada vez maior de concorrentes em língua não inglesa nas disputas principais, tendo o Brasil se beneficiado disso por dois anos consecutivos. Ao contrário da edição de 2025, que contemplou o brasileiro “Ainda Estou Aqui”, o francês “Emilia Pérez”, a animação letã “Flow” e o doc palestino “Sem Chão”, a repercussão dos longas estrangeiros neste ano foi mais tímida.

Mesmo superando “O Agente Secreto” em Melhor Filme Internacional, o norueguês “Valor Sentimental” não ganhou mais nenhuma estatueta entre as outras oito pelas quais estava concorrendo. A própria vitória do longa de Joachim Trier na categoria demonstrou uma votação segura, visto que, de todos os concorrentes, o drama tem vários diálogos falados em inglês e, politicamente, era de longe o mais brando da competição. Produções urgentes, de execução complexa e que expõem as tensões e conflitos da atualidade, como o iraniano “Foi Apenas um Acidente” (que concorria pela França), o espanhol “Sirât” e o tunisiano “A Voz de Hind Rajab”, saíram de mãos vazias da cerimônia, assim como o próprio filme de Kleber Mendonça Filho.

Toda a campanha intensa da equipe e da distribuidora de “O Agente Secreto”, porém, só teve a ganhar com o trabalho feito ao longo dos últimos meses, em particular durante o período de votação. A indicação de Melhor Filme em si já é capaz de dar a maior visibilidade possível para qualquer produção cinematográfica, sobretudo quando se trata de uma obra falada em português. Quebrar essa barreira em uma festa da indústria norte-americana já foi, para o cinema pernambucano, muito mais do que uma eventual vitória.

A já esperada consagração do aclamado “Uma Batalha Após a Outra” em seis categorias, incluindo Melhor Filme, Direção (Paul Thomas Anderson) e Casting (Cassandra Kulukundis), pareceu também uma forma de responder ao turbulento presente e, simultaneamente, celebrar a excelente repercussão de um thriller de ação feito à moda antiga. As quatro estatuetas conquistadas por “Pecadores” seguem o caminho de celebrar a produção norte-americana inédita de grande porte e com amplo apreço popular — coisa que se tornou cada vez mais rara, sobretudo após a pandemia.

A representatividade também se mostrou uma preocupação no que concerne a essa última produção, que teve o segundo roteirista negro a vencer o troféu da categoria, ao passo que Michael B. Jordan foi o sexto ator negro a levar o prêmio principal de atuação. A diretora de fotografia Autumn Durald Arkapaw também fez história ao se tornar a primeira mulher (e negra) a vencer o Oscar de Melhor Fotografia, apesar da intensa torcida pela vitória do brasileiro Adolpho Veloso, que concorria por “Sonhos de Trem”.

 

Exceção feita a uma alfinetada do apresentador Jimmy Kimmel ao presidente Donald Trump durante a entrega do Oscar de Melhor Documentário (em que prevaleceu “Mr. Nobody Against Putin”), a 98ª edição da cerimônia foi inofensiva do ponto de vista das provocações. A fala de protesto mais marcante veio do ator espanhol Javier Bardem, que apresentou a premiação de Filme Internacional ao lado da atriz indiana Priyanka Chopra. “Não à guerra e Palestina livre!”, disse sob aplausos.

Nas redes sociais, no entanto, o que gerou debates mais acalorados acabou sendo a piada do mestre de cerimônias, Conan O’Brien, sobre a polêmica envolvendo Timothée Chalamet. Em uma declaração viral durante uma conversa, o astro indicado havia afirmado não querer trabalhar com artes “com as quais ninguém mais se importa”, como ópera e balé, provocando uma onda de manifestações de diversos setores artísticos. “Reforçamos a segurança porque pode haver ataques da comunidade de ópera e balé”, falou o apresentador em meio ao sorriso constrangido do ator de “Marty Supreme”, que acabou sem nenhuma estatueta.