° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

"O Agente Secreto" leva o Recife ao Oscar e atrai interesse para mais produções pernambucanas

Nomeação de "O Agente Secreto" ao Oscar já é considerada uma vitória para o Recife na avaliação de pesquisadores e cineastas pernambucanos, que acreditam que o filme deve atrair incentivos e abrir caminhos para outras produções do estado

Por André Guerra

O Recife é cenário de "O Agente Secreto", que concorre a quatro categorias do Oscar.

Após uma intensa trajetória, chega a tão aguardada noite em que o cinema pernambucano finaliza a mais prestigiosa temporada de sua história. Vença ou não o Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco, “O Agente Secreto” levou a música, as lendas, o imaginário e as ruas do Recife a uma participação histórica na festa mais assistida do cinema mundial. Entretanto, a coragem e a autoralidade da produção pernambucana já são respeitadas no mundo afora há muito tempo.

É o que aponta o pesquisador e crítico de cinema Paulo Cunha ao destacar a pluralidade do audiovisual do estado em conversa com o Diario. “Todo o interesse na possibilidade de um filme rodado no Recife ganhar o Oscar em uma ou mais categorias me leva a desejar que o nosso cinema continue heterogêneo, praticado por homens e mulheres de origens diversas”, projeta, refletindo ainda sobre o impacto do longa nas políticas públicas. “Desejo que toda essa visibilidade internacional permita que o nosso modelo de produção, baseado no Funcultura Audiovisual, receba mais recursos para ampliar sua capacidade de gerar filmes originais pelos próximos anos”, torce.

A singularidade do cinema pernambucano também foi destacada pelo próprio Kleber Mendonça Filho, diretor de “O Agente Secreto”, em entrevista ao Diario em janeiro deste ano. “O cinema pernambucano é o mais autoral do Brasil”, disse na ocasião, ao lembrar de títulos que ajudaram a construir esse legado, como “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis, e “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes, além de seus próprios filmes, como “O Som ao Redor” e “Aquarius”. “São obras tão profundamente honestas sobre o seu lugar, que conseguem criar uma comunicação enorme”, comenta.

O diálogo com outros cineastas que o antecederam fica ainda mais claro no documentário “Retratos Fantasmas”, em que resgata a memória do Centro do Recife, muitas vezes parafraseando filmes pernambucanos emblemáticos, como o curta “Recife de dentro pra fora”, de Katia Mesel. “Recife é uma cidade como qualquer outra. Fazer um filme aqui é torná-lo uma estrela, como Nova York para os americanos ou Paris para os franceses”, defendeu Kleber.

Mesel também colaborou com parte da trilha sonora de “O Agente Secreto”, resgatando músicas do disco “Paêbirú”, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, uma delas ouvidas nos créditos iniciais do filme. Ela explica que Kleber Mendonça e Emilie Lesclaux, produtora (única indicada solo na categoria de Melhor Filme desta edição do Oscar), influenciam positivamente vários nomes da produção pernambucana ao levá-lo à maior festa de Hollywood.

“Eles estão levantando a bola de todo mundo. Essas indicações podem ajudar ainda mais a consolidar a credibilidade de público e a potencialidade de distribuição de filmes fora do eixo do Sudeste. Precisamos muito aqui no Nordeste desse investimento na exibição desse tão múltiplo e poderoso cinema que fazemos aqui há um século”, afirma a cineasta. “Todas as pessoas que frequentam ou não o cinema estão se interessando por esse resultado. Ele representa algo extremamente importante que pode, inclusive, desencadear várias coisas positivas para a nossa cultura cinematográfica”, avalia.

O professor e crítico Alexandre Figueirôa aponta que ver o Recife chegar ao Oscar demonstra como o cinema pernambucano reflete a pujança e a criatividade dos autores brasileiros de modo geral, lembrando a importância da expansão dos investimentos públicos. “O apoio governamental é fundamental para a manutenção do cinema e quando você tem governantes que não olham para a cultura como algo central na economia”, reforça. “É preciso que haja, qualquer que seja o resultado dessa premiação, um cuidado com a descentralização das produções, para estimular cada vez mais os jovens cineastas, inclusive, a manterem essa alta como uma constante também em produções menores”, aponta.

FORTE CANDIDATO

No páreo com o norueguês “Valor Sentimental”, que concorre em nove categorias, “O Agente Secreto” segue forte na disputa de Melhor Filme Internacional. Esta é a maior chance do longa entre as quatro indicações ao Oscar, podendo se tornar a segunda vitória consecutiva para o Brasil na categoria, após o prêmio de “Ainda Estou Aqui” em 2025. Wagner Moura, na disputa por Melhor Ator, pode se beneficiar da queda vertiginosa da campanha do outrora favorito Timothée Chalamet, de “Marty Supreme”, mas a concorrência com Michael B. Jordan, de “Pecadores”, parece ser a maior pedra no sapato do astro brasileiro.

Pouco é possível prever sobre Melhor Casting, ou Seleção de Elenco, já que se trata da edição inaugural da categoria. Gabriel Domingues, indicado por seu trabalho reunindo o vasto número de atores de “O Agente Secreto”, é o único candidato estrangeiro da lista, o que já reforça a força do filme entre os votantes, mas quem deve prevalecer na disputa é o trabalho feito por Francine Maisler em “Pecadores” ou Cassandra Kulukundis, por “Uma Batalha Após a Outra”, os mesmos trabalhos que estão na briga final pelo maior Oscar da noite, o de Melhor Filme.