Ícone do Manguebeat, Chico Science completaria 60 anos nesta sexta (13), quando segue sendo cultuado
Artistas como João Gomes, Amaro Freitas e Uana falam como Chico Science ainda permanece influente para diversos segmentos musicais em Pernambuco em 2026, quando o músico completaria 60 anos, se vivo estivesse
Um dia após o aniversário de Olinda e do Recife, Chico Science faria 60 anos nesta sexta-feira (13) — como se não pudesse se desgarrar das duas cidades. É assim no calendário, mas também na música. Ele segue intrínseco a boa parte do que se produz e se escuta em todo o estado. Afinal, com a estética mangue e pernambucana, o cantor liderou o resgate da cultura popular e folclórica do ostracismo e preparou um terreno fértil para escoar novidades e criatividade nos mais diversos estilos e gêneros.
Antes de tudo isso, porém, ele foi Francisco de Assis França Caldas Brandão, o caçula de quatro irmãos que passou a infância e a adolescência no bairro de Rio Doce, em Olinda. Ali, aprendeu a amar música, especialmente a black music norte-americana. James Brown e Grandmaster Flash eram seus heróis. Na escola, frequentou as poucas e únicas aulas de teoria musical que teria; depois disso, suas composições nasciam de onomatopeias anotadas e repetidas para os músicos das bandas por onde passou.
Primeiro veio o Orla Oribe, depois o Loustal e, então, o Lamento Negro. Com a fusão do Loustal e o Lamento Negro surgiu o grupo Chico Science e Lamento Negro, que posteriormente deu origem a banda Chico Science & Nação Zumbi. A partir disso, no território sem fronteiras do manguebeat, inventou um som que não era rock, nem hip-hop, nem coco, nem maracatu. Mas era tudo isso ao mesmo tempo.
Influência na música contemporânea pernambucana
A experimentação sonora do disco de estreia "Da Lama ao Caos" foi um abalo sísmico na indústria musical em 1994. Três décadas depois, os efeitos desse tremor ainda são sentidos. Aos 23 anos, João Gomes não viveu o Recife dos anos 1990, mas carrega nas veias o mesmo espírito para fazer o Recife dos anos 2020. “Mesmo eu vindo do forró e do piseiro, sinto que essa coragem de experimentar, de valorizar as raízes e, ao mesmo tempo, de olhar para frente, também me inspira muito”, diz o cantor em entrevista ao Diario.
Assim como Chico Science apresentou a música pernambucana ao mundo, o pianista Amaro Freitas faz o mesmo com seu jazz disruptivo, trazendo elementos da cultura popular e do rock. ”Chico me influencia muito. Essa ideia de costurar o tradicional com o universal é exatamente o que eu busco na minha música”, afirma. A cantora Uana também ecoa as ideias do manguebeat, costurando o pop com R&B, bregafunk e arrocha. “O legado de Chico Science não é só musical. É também de como pesquisar e inventar coisas novas na música e na cultura”, explica.
O rapper Mago de Tarso vai mais a fundo na herança. As referências aparecem nos ideais, na estética dos clipes e nas rimas que exaltam o Nordeste enquanto fundem trap, bregafunk e forró, expandindo os limites do que Chico Science começou. “Ele provou que a gente não precisava imitar ninguém para ser grande. Basta entender nossa raiz e transformar isso em linguagem universal”, exalta Mago.
O espectro de Chico Science
Segundo o pesquisador Jeder Janotti, a sonoridade de Chico Science & Nação Zumbi carrega uma poética que sempre permitiu encontros inusitados. “Era diferente de uma banda de heavy metal tradicional, onde você tinha a defesa de uma gramática não heterogênea”, aponta.
Jeder ainda defende que as diversas releituras contemporâneas inspiradas em Chico são uma forma de perpetuação do seu legado. “Ele é um fantasma que é constantemente agenciado porque integra a nossa memória cultural e as múltiplas imaginações do que foi, do que é e do que podem vir a ser as cenas musicais do Recife”, conclui.