Favorita ao Oscar por "Hamnet", Jessie Buckley é a melhor coisa do anárquico "A Noiva!"
"A Noiva!", com Jessie Buckley e Christian Bale, entra em cartaz nos cinemas comerciais de todo o Brasil nesta quinta-feira (5). Filme é inspirado em "Frankenstein", de Mary Shelley
Despertar de repente em Chicago durante os anos de 1930 já pode ser, por si só, um pesadelo. Mas é assim que começa — ou recomeça — a jornada de Ida (Jessie Buckley), brutalmente assassinada a mando de um grande mafioso e trazida de volta à vida pela Dra. Euphronios (Annette Bening) a pedido de um solitário Frank (Christian Bale), monstro remendado também a partir de defuntos. Nasce um intenso romance entre os dois, que passam a ser perseguidos pelas autoridades em meio a uma onda de mortes que se espalha pela região.
“A Noiva!”, que acaba de entrar em cartaz nos cinemas do Recife, é apenas o segundo longa de Maggie Gyllenhaal, atriz que estreou na direção em 2021 com “A Filha Perdida”, rendendo a primeira indicação ao Oscar de Jessie Buckley, atualmente favorita absoluta ao prêmio da Academia por “Hamnet”. No novo trabalho, a cineasta adapta a história levada às telas pela primeira vez em 1935 no filme “A Noiva de Frankenstein”, continuação direta de “Frankenstein”, de 1931.
Ousada e cheia de energia visual, Maggie Gyllenhaal parece querer usar essa iconografia do romance de Mary Shelley para fazer a sua própria versão de “Coringa — menos a partir da lógica de desconstrução anticlimática de “Delírio a Dois” e mais próxima da chave anárquica de trabalhos como “Aves de Rapina” ou “Cruella”. Fica clara ainda a inspiração em clássicos de casais criminosos, sobretudo “Bonnie and Clyde: Uma Rajada de Balas”, ambientado na mesma década.
Não é coincidência que haja tanto de “Coringa” em “A Noiva!”; afinal, os dois filmes compartilham o mesmo diretor de fotografia, Lawrence Sher, e a compositora, Hildur Guðnadóttir, na trilha sonora. Ainda que a premissa seja de absoluta fantasia, a caracterização não impõe componentes fantásticos aos corpos cadavéricos dos personagens. A cineasta filma a imprevisibilidade e a intensidade física da protagonista como se ela própria fosse uma habilidade sobre-humana — e a cena de dança, seguida por um grande discurso em um salão lotado, é o ápice dessa ideia da desobediência como um poder especial.
Há, na encenação de Gyllenhaal, a proposta de articular uma atmosfera de delírio e estilização com um realismo de denúncia que rejeita soluções grandiosas ou catárticas do cinema de ação tradicional. A natureza de todo o cenário, afinal, é trágica. A noiva não se lembra de suas origens, mas tem um ímpeto de viver e ser livre que transparece em sua expressividade corporal, além de verbalizar, de maneira incrivelmente emocional, a dor pela banalização da violência contra as mulheres. Já o monstro de Christian Bale parece mais velho, quebrado e melancólico do que outras encarnações recentes do personagem.
A diretora não consegue segurar essa eletricidade durante toda a projeção e, frequentemente, acaba repetindo as batidas dos filmes que referencia e deságua em território um pouco genérico, especialmente pela forma sem brilho como lida com seus coadjuvantes (Penélope Cruz e Jake Gyllenhaal, em particular). Mas o magnetismo da presença de Jessie Buckley confere à anarquia de “A Noiva!” uma inequívoca sensação de novidade, ao menos enquanto a câmera está apontada para ela.