Novo disco de Lello Bezerra é caldeirão musical recheado de cultura popular pernambucana e pop urbano
Nesta sexta-feira (27), o guitarrista caruaruense Lello Bezerra lança seu segundo disco solo, "Matéria e Memória", que mistura a cultura popular pernambucana com diversos gêneros musicais urbanos
Lello Bezerra não tem medo do futuro. Também não quer fugir do passado. Talvez por isso "Matéria e Memória", seu segundo álbum autoral lançado nas plataformas digitais nesta sexta-feira (27), soe como um disco que vem de 2050, mas finca os pés em Caruaru, onde tudo começou. Sua cidade natal é a memória que vira matéria em um liquidificador onde se mistura cavalo marinho e bandas de pífano com grunge, gospel, brega, cumbia rebaixada e industrial. É grande como São Paulo, sua residência hoje, e íntimo como um quarto, na primeira vez em que ele se aventura como cantor.
Curiosamente, o primeiro impacto de "Matéria e Memória" não vem dos ouvidos e, sim, dos olhos. Mais precisamente na capa, onde um menino usa um dos capacetes da dupla francesa Daft Punk enquanto segura uma guitarra. Um bode divide o espaço com ele. Ao fundo, mulheres observam a cena e uma igreja pega fogo. É uma Caruaru distópica que só existe no futuro, ou na imaginação de quem cresceu lá e aprendeu a sonhar com outro mundo possível. Claro, o menino pode ser Lello, mas é também qualquer criança de periferia que olha para frente e vê música.
Foram cinco anos de espera até "Matéria e Memória" enfim chegar. Nesse tempo, o músico perdeu o backup depois de um ano e meio de produção e precisou reconstruir tudo do zero. Contra a lógica da indústria, que empurra discos a cada um ou dois anos, Lello esperou. Assumiu a produção, a mixagem e, no caminho, descobriu do que é capaz, onde ainda precisa melhorar e, acima de tudo, quem é. “Tive muita sorte de nascer em Pernambuco. Esse álbum foi uma redescoberta minha com a cultura popular e toda a nossa ciência cultural”, celebra o artista em entrevista ao Diario.
Lello é guitarrista. E dos melhores. Prova disso é a sua estreia em "Desde Até Então", tido como um dos 50 melhores de 2019 pela APCA (Associação de Críticos de Arte de São Paulo). A lista de artistas com quem já colaborou inclui Jorge Du Peixe, Chico César, Siba, Buhr, Cátia de França, Arnaldo Antunes e dezenas de outros. Não espanta, portanto, que "Matéria e Memória" tenha suas faixas instrumentais, como “Gestalt”, “Incebada” e “Chiste”. O que surpreende — positivamente — é nas canções em que ele se alia à palavra.
Porém, Lello sempre almejava dar voz à própria sonoridade. Antes de ser o guitarrista reconhecido que é hoje, era só um menino em Caruaru tentando decifrar as composições de Zé Ramalho, mas a vida o levou para o caminho da instrumentação. Até que, finalmente, chegou a hora. "Com a maturidade e bagagem que eu adquiri, esse é o momento certo”, afirma. Sem perder o improviso sonoro que o caracteriza, ele ainda aprofunda o que chama de "multigênero pop". Trata-se da liquidificação de ritmos que já aparecia no disco anterior e aqui ganha novas camadas
Em um disco que parte das memórias do artista, a participação de Jorge Du Peixe no show de lançamento soa como um fechamento de ciclo. O vocalista da Nação Zumbi se junta a Lello neste domingo (1º), às 18h, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. “É incrível virar amigos dos ídolos e colaborar com eles. O Jorge ama esse disco e me ajudou a enxergar muitas coisas”, diz Lello.