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"Difícil é, às vezes", disse Manuel Bandeira sobre "Grande Sertão: Veredas" em carta a Guimarães Rosa publicada no Diario

Em carta publicada no Diario de Pernambuco em 1957, Manuel Bandeira escreveu a Guimarães Rosa suas dificuldades e deslumbramentos com Grande Sertão: Veredas, que completa 70 anos em 2026

Por Allan Lopes

Diario publicou carta de Manuel Bandeira (esq) endereçada a João Guimarães Rosa (dir) sobre "Grande Sertão: Veredas"

Em 1956, o Brasil era outro. Mas um livro lançado pelo escritor mineiro João Guimarães Rosa naquele ano mudaria para sempre a maneira como o país se enxerga. Completando sete décadas desde o lançamento, "Grande Sertão: Veredas" continua sendo um desafio, um mistério e uma das experiências literárias mais radicais já empreendidas em língua portuguesa. Tão radical a ponto de deixar perplexos os maiores talentos da época. Manuel Bandeira, gênio da poesia, confessou ter suado para entrar na prosa de Riobaldo em carta ao colega escritor, publicada no Diario de Pernambuco em 14 de abril de 1957.

Bandeira começou saudando o destinatário. "Amigo meu, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar!", escreveu o poeta, antes de justificar o atraso na leitura: "Só agora pude arranjar tempo para ler o romance de Riobaldo. Como que pudesse antes? Compromissos daqui, obrigações de acolá... Você sabe: a vida é um Itamaraty — viver é muito dificultoso”, disse.

Na sequência, ele tratou de um mal-entendido que circulava na época. Supostamente, Guimarães Rosa havia inventado uma língua nova, artifício pelo qual Bandeira, assumidamente, não nutria simpatia. Mas, ao se debruçar sobre o livro, descobriu que a estranheza era de outra natureza. “Difícil é, às vezes”, reconheceu. “Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário”.

Entre os vocábulos que o encantaram, um ganhou destaque: “Nenhum dicionário dá a palavra ‘veredas’ com o significado que você mesmo define”, apontou. Mas aí vieram "arga", "suscenso", "lugugem" e outros tantos que fizeram Bandeira se render. “Me ensine o que é?”, pediu. "Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem”, confessou.

Aos olhos de Bandeira, o maior mérito do autor foi transformar um jagunço em um poeta à altura do Macbeth de Shakespeare. Segundo ele, Riobaldo inventa dentro da linguagem que já é sua, com um vocabulário enriquecido por neologismos orgânicos e compreensíveis.

“Por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim”, afirmou ele, que enxergou o próprio narrador em Guimarães Rosa. “Riobaldo é você se você fosse jagunço”, disse.

Bandeira ainda admitiu ter levado dias para atravessar as 594 páginas do romance, aliviado pela pontuação generosa do amigo. "Ainda bem que você virgulou tudo, miudamente".

Mas foi o caso de Diadorim que rendeu a confissão mais sincera. O poeta admitiu sua decepção ao descobrir que a figura enigmática era mulher. "Eu preferia Diadorim homem até o fim", escreveu, reconhecendo o talento para fazer o mistério: "Como você disfarçou bem! Nunca pude imaginar nada".

Após 70 anos, a carta de Bandeira a Guimarães Rosa continua sendo um dos testemunhos mais belos da potência de Grande Sertão: Veredas. Ao final, depois de confessar dificuldades, deslumbramentos e até uma decepção, o poeta pernambucano sintetizou o que talvez seja a grande lição do livro. "O diabo não há! Existe é o homem humano”.

Leia a carta na íntegra:

Amigo meu, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar!

Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo. Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá… Você sabe: a vida é um Itamarati – viver é muito dificultoso.

Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra “vereda” com o significado que você mesmo define à página 74: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda.” Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: “ciriri dos grilos”, “gugo da juriti” etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é “arga”, “suscenso”, “lugugem” e um desadôro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será?

Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré.

Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada. Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão? O sertão é uma espera enorme. E o silêncio? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo. Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa’uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que proseava gentil sobre as sérias imoralidades. Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe: O diabo não há! Existe é o homem humano. Soscrevo.