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"Roots", o disco do Sepultura que mudou o heavy metal há 30 anos

Lançado há 30 anos, o disco "Roots", da banda brasileira Sepultura, trouxe para o heavy metal referências musicais afro-americanas que revolucionaram o gênero.

Por Ricardo Novelino

Em 1996, banda Sepultura era formada pelos irmãos Max e Iggor Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Xisto Jr.

Em 20 de fevereiro de 1996, chegava ao mercado internacional da música uma revolução. Mais do que um álbum de rock, “Roots” pintou o Sepultura no mapa dos ícones do heavy metal. Há exatos 30 anos, a obra dos brasileiros teve grande impacto na cena, que dura até os dias de hoje. Com esse disco, a banda, que está em turnê de despedida, liderou festivais de peso, correu o planeta e levou um pouco da cultura brasileira aos quatro cantos do globo, onde, na maioria das vezes, as referências do Brasil eram apenas Pelé, caipirinha e carnaval.

Tem quem diga que o Sepultura já era “grande” antes do Roots. Tudo bem. Adeptos de death e thrash metal ou outros estilos mais “hard” de metal sabiam o que os irmãos Cavalera (Max e Iggor), Andreas Kisser e Paulo Xisto Jr. tinham colocado o pé na porta da cena mundial desde os anos de 1980, quando surgem as primeiras gravações e a troca de fitas entre os fãs.

Após o “Schizophrenia”, de 1987, o negócio vingou. Como foguete, os caras emplacaram “Beneath The Remains”, “Arise” e “Chaos AD” em uma sequência impiedosa de lançamentos. Na cola, acontecem o show da segunda edição do Rock In Rio, no estádio do Maracanã, e turnês avassaladoras ao redor do mundo.

Mas com “Roots”, o bicho pegou. Tanto é que Dave Grohl, ex-baterista do Nirvana e líder do Foo Fighters, disse, em meados de 2015, uma frase que mostra bem o impacto do álbum para americanos e europeus: “Mudaram o jogo para sempre com essa coisa toda.” E é isso mesmo. A capa já deixa a temática “from hell”, adotada pela maioria dos discos do gênero. Em tons avermelhados, a imagem traz um indígena brasileiro em foco.

A lista de músicos convidados aponta Mike Patton, do Faith no More, banda conhecida por subverter muitos padrões da música pesada, e... Carlinhos Brown. Era a década de 1990 e um disco de heavy metal ter um percussionista baiano, ligado a ritmos afro-americanos, era uma “heresia”.

Mas, já diria um profeta da música pesada, capa não toca música. Pois bem, quando o CD começava, tinha início, de fato, a tal revolução sonora. Era um peso absurdo. O riff da música título explode com Max Cavalera berrando “Root Bloddy Roots”. E tome percussão. Metal com sotaque do Brasil.

O clipe tinha essa pegada, com timbaleiros dialogando com as guitarras e a bateria, numa espécie de “olodum-metal”. Na veia. Tinha abertura com berimbau, percussionistas “pintados” para a guerra e muito, mas muito peso. “Attitude”, “Cut-throat” e “Breed Apart” também fazem tremer até radiola de criança.

Até que surge a faixa “Rathamahatta”, com o já citado Carlinhos Brown, numa animação turbinada com palavras salpicadas, como “favela”, “pipoca” e “Lampião”. Foi um “grande surto coletivo” para os headbangers mais puristas, mas deixou uma trilha escancarada para o que seria o New Metal dos anos 2000.

Caminho

O Roots fica ainda mais importante em 2026, quando é possível ter a possibilidade de olhar para o passado. E pensar que quatro jovens cabeludos do Sudeste (São Paulo e Belo Horizonte) que tinham sido forjados na música a partir de bandas dos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, decidiram buscar nas raízes (roots) brasileiras os elementos principais do álbum.

 

Uma semente tinha sido plantada na obra anterior, “Chaos AD”, de 1993, onde está a faixa "Kaiowas", com um sotaque dos povos originários. A partir daí, surgiu a ideia de ir conhecer de perto uma aldeia, no “meio do Brasil”. Max convenceu a gravadora Roadrunner, de origem na Europa e com sede também nos Estados Unidos, a liberar uma grana para a banda ir ao encontro dos índios xavantes. Com o produtor do disco, Ross Robisnon, Max, Iggor, Andreas e Paulo foram até a região de Camarana, no Mato Grosso, em novembro de 1995.

Durante três dias, o Sepultura fez o que se chama de “imersão”. Os quatro se pintaram, tomaram banho de rio e comeram a comida da aldeia. Disso tudo, saiu a faixa "Itsári" (que, assim como o título do álbum, significa "raízes"). Para ficar ainda mais “roots”, a canção foi gravada em um gravador de oito canais alimentado com bateria de caminhões, por causa da falta de energia na aldeia.

“Roots” ajudou a dar projeção ao povo, que passou a ser reconhecido pelo seu nome específico e não apenas como "índios". Além disso, a busca por informações e produtos artísticos dos xavantes cresceu após a colaboração deles com a banda.

Resultado

Roots foi considerado o 57º maior disco da música brasileira, segundo a edição brasileira da revista Rolling Stone. É também o álbum mais vendido do Sepultura, com mais de 500 mil cópias nos Estados Unidos.