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Artistas pernambucanos assinam alegorias do desfile da Grande Rio em homenagem ao Manguebeat

Na próxima terça-feira (13), a escola de samba Grande Rio, de Duque de Caxias, leva o Manguebeat para a Marquês de Sapucaí, onde promete representar Pernambuco

Por Allan Lopes

Escola de samba Grande Rio homenageia Movimento Manguebeat no carnaval 2026

O maior carnaval em linha reta do mundo é de Pernambuco. Mas, megalomaníaco como só ele, segue se desenhando por outros cantos do país. Desde 1951, quando o frevo do Clube Vassourinhas inaugurou um jeito de festejar em Salvador, até os dias de hoje, com o Galo da Madrugada batendo as asas também em São Paulo. Agora, é o Rio de Janeiro que entra na rota.

Na próxima terça-feira, às 22h, a escola de samba Acadêmicos da Grande Rio apresenta na Marquês da Sapucaí o enredo “A Nação do Mangue”, em homenagem ao movimento cultural pernambucano Manguebeat.

Para isso, a agremiação convidou quatro artistas visuais pernambucanos independentes, de diferentes áreas artísticas, para criar a identidade visual da alegoria. O ponto em comum é que todos dialogam com as expressões culturais do estado em seus trabalhos. “É muito massa ver que o pessoal da Grande Rio, enquanto pessoas do sudeste, tiveram profundidade e cuidado na pesquisa do tema. Saíram do superficial e procuraram abordar o tema com densidade”, celebra a muralista e ilustradora Carolina Noemia, que assina os trabalhos ao lado dos artistas Evêncio Vasconcelos e Tchôca, e do Coletivo Vacilante.

Nascida no bairro da Mustardinha, na Zona Oeste do Recife, Carolina mistura em suas telas e ilustrações referências à xilogravura, ao Maracatu Rural e ao manguebeat. “Não existe meu trabalho sem os estudos sagrados que Chico deixou em terra”, destaca a artista.

Entre os personagens que habitam o trabalho de Carol, um deles vai ganhar a avenida: a Catita. Figura que dá início à celebração do Maracatu Rural, ela representa a mulher simples do povo, com seu jereré — rede de pesca de mariscos — onde guarda o dinheiro arrecadado.

A Tricolor de Caxias, como é conhecida a escola, desfilará dentro do Grupo Especial na próxima terça-feira com a proposta de aproximar às culturas que germinam nos diferentes mangues do Brasil. “Fazemos essa conexão entre os mangues de Caxias e os do Recife, porque, na verdade, a produção cultural aqui na Baixada Fluminense tem a mesma raiz identitária do Manguebeat. O samba e o Manguebeat nascem da mesma lama", aponta Antônio Gonzaga, carnavalesco da Grande Rio que desenvolve o enredo ao lado do escritor Renato Lemos e do pesquisador Jader Moraes.

Carolina revela que só verá como sua arte ficou na alegoria no dia do desfile, ao mesmo tempo que o público. “É tão bonita essa magia, esse mistério que envolve o carnaval. Os desfiles, aquela expectativa de 'só saber na hora'..., confesso que me deixa ansiosa. Mas é uma ansiedade boa, dessas que a curiosidade traz. Vai ser lindo. Terça-feira a gente descobre tudo e celebra”, afirma a artista.

Samba-enredo

Ailson Picanço, Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni e Marcelo Moraes são os nomes por trás do samba-enredo. A letra que vai ecoar na Sapucaí exalta a resistência negra e periférica, a luta ambiental e social e a força transformadora do carnaval, com referências a Zumbi, Paulo Freire e, claro, Chico Science. “Freire, ensine um país analfabeto/ Que não entendeu o manifesto/ Da consciência social/ Chico! Manguebeat está na rua/ Caxias comprou a luta/ E transforma em carnaval”, diz um dos trechos.