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Frevo "Cabelo de Fogo" chegou às ruas há cerca de 40 anos e se tornou um dos mais populares do carnaval

Parte da trilha sonora do filme "O Agente Secreto", o frevo "Cabelo de Fogo", do Maestro Nunes é sucesso no carnaval há cerca de 40 anos.

Por Camila Estephania

Maestro Nunes compôs o frevo de rua "Cabelo de Fogo" inspirado pelos cabelos tingidos de dourado do Maestro Birino.

Um dos frevos mais executados no carnaval de Pernambuco, “Cabelo de Fogo”, do Maestro Nunes, chega à folia deste ano com especial destaque. A música é a trilha sonora de um momento chave do filme “O Agente Secreto”, quando o personagem de Wagner Moura descobre que está ameaçado de morte e, ao sair na rua, paradoxalmente encontra a vida acontecendo a todo vapor durante a passagem de um bloco de carnaval.

Toda a intensidade do frevo em questão convida o protagonista a gozar daquele instante, a despeito dos problemas que lhe cercam no cenário do Recife de 1977. Uma cena real para tantos foliões que já brincaram o carnaval escondendo a dor, como nos versos da música “Turbilhão”, porém, o uso de “Cabelo de Fogo” na década de 70 é uma licença poética que nos faz lembrar que o filme indicado ao Oscar é, na verdade, uma ficção.

Isso porque estima-se que Maestro Nunes só teria composto a música nove anos após o período retratado no longa-metragem, ou seja, em 1986. Ao que tudo indica, seu primeiro registro fonográfico é de 1993, no disco “O Sábio do Frevo”, de Izaldo Silva com Nunes e sua orquestra, mas vários amigos e alunos do maestro lembram de tocá-la em meados dos anos 80.

De lá para cá, 40 anos se passaram e foram suficientes para que a obra ganhasse a preferência de muitos foliões. Hoje, ela é mais lembrada até que outros clássicos do gênero que a antecederam, como “Último Dia”, de Levino Ferreira, lançado em 1951, e “Esquenta Mulher”, de Nelson Ferreira, lançado em 1950.

Sucesso

“Acho que ‘Cabelo de Fogo’ é um dos últimos frevos de rua a fazer sucesso”, avalia o Maestro Duda, aos 90 anos. O veterano acredita que a estrutura mais simples da composição contribuiu para que a música tenha sido amplamente disseminada entre as orquestras que tocam no carnaval de Pernambuco. “Qualquer aluno que aprendeu a tocar escala já sabe tocar ela, é intuitivo! Nunes começou a tocar e pronto, o povo foi ouvindo e tocando”, observa ele.

O Maestro Ademir Araújo, popularmente conhecido como Formiga, explica que Nunes compunha frevos considerados fáceis, porque tinha interesse de fortalecer o repertório do carnaval mais popular, que acontecia nas ruas. Era lá que Nunes mais atuava, mesmo quando o modelo passou por uma crise entre os anos de 1960 e 1980, por conta do auge dos carnavais dos clubes finos.

“Existe um separatismo muito grande, vejo na minha categoria: o músico que toca em banda é um padrão, o que toca em clube fechado é outro, o que toca em palco é outro, e o que toca no chão é (considerado) o pé no chão que não sabe nada”, critica Formiga, aos 83 anos, lembrando como as orquestras de chão estavam desprestigiadas na época.

O trabalho de Nunes foi um ponto de virada nesse cenário, pois, além de injetar e difundir novos sucessos nas ruas desde a década de 1970, como “É de perder os sapatos”, “Bala doida” e “Mosquetão”, ele também reverenciava personagens do chão. É o caso do Maestro Birino, que tocava regularmente nos cortejos do Vassourinhas do Recife e serviu de inspiração para “Cabelo de Fogo” na década de 1980.

“Quando eu tocava na bandinha do Pátio de São Pedro, Birino vivia comigo, tocava sax. Aí Nunes fez ‘Cabelo de Fogo’ em homenagem a ele, o cabelo dele era amarelo”, confirma o Maestro Oséas, aos 71 anos. Atualmente, Oséas comanda a orquestra que faz o cortejo de alguns dos principais blocos de Olinda, como o Elefante de Olinda, Cariri Olindense, Ceroula, e reconhece que “Cabelo de Fogo” é um dos pontos altos dos desfiles. “É um frevo bonito e fácil. Para tocar na rua é bom demais, descansa a orquestra e o povo gosta”, pondera.

Atuação política

Amigo do Maestro Nunes desde a década de 1950, o Maestro Formiga ainda indica que a proposta musical do artista foi um desdobramento da atuação política dele. Os dois trabalharam juntos entre 1958 e 1964 na Banda Municipal do Recife e, após o Golpe Militar, Formiga testemunhou o afastamento de Nunes do grupo por conta da sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro.

Além disso, na época, o músico também fazia parte do Movimento de Cultura Popular, o MCP, que tinha a proposta de alfabetizar e conscientizar crianças e adultos pobres. A iniciativa foi fundada com apoio do então governador Miguel Arraes, que foi deposto à força pelo Regime Militar. Pouco após o Golpe, Nunes passou meses escondido e quando voltou a atuar no cenário musical do Recife, passou a se dedicar aos cortejos populares das troças com o intuito de alegrar as festas do povo.

Em 1972, fundou a Escola de Frevos do Nordeste, voltada especialmente para crianças de baixa renda e filhos de presidentes de agremiações. O espaço, localizado no Pátio de Santa Cruz, foi mantido pelo maestro até o fim da sua vida, em 14 de setembro de 2016. Coincidentemente, mesma data em que se comemora o Dia Nacional do Frevo.