Tumaraca abre Carnaval do Recife homenageando as mulheres e exaltando legado de Naná Vasconcelos
Espetáculo Tumaraca realiza 23ª edição para abrir as festividades carnavalescas do Marco Zero, homenageando o empoderamento feminino no maracatu de baque virado
As 13 Nações de Maracatu que mantêm vivo o legado do mestre Naná Vasconcelos já estão prontas para a abertura oficial do Carnaval no Recife. Chegando à sua 23ª edição hoje, no Marco Zero, e trazendo como tema “Empoderamento e Protagonismo Feminino: Canto para Iyabás”, o espetáculo Tumaraca de 2026 conta com a participação especial de Luedji Luna, Gabi do Carmo e Karynna Spinelli, todas com trajetória ligada a religiões de matrizes afro-ameríndias.
Durante 14 anos, Naná esteve à frente desse momento que marca o carnaval, liderando centenas de batuqueiros e agregando foliões. Desde o falecimento do artista, em 9 de março de 2016, o projeto segue sendo tocado por um grupo, que inclui uma equipe de coordenação dedicada a preservar a cultura do maracatu. “Tudo funciona de maneira coletiva, das decisões de repertório às nossas chamadas na mídia. Não existe uma liderança única e eu, particularmente, sempre prezei pelo protagonismo dos maracatus, não de um diretor, coordenador ou líder”, explica Rubinho Petty, um dos organizadores do Tumaraca, em entrevista ao Diario.
Integrante do Voz Nagô, Negra Diny afirma que a escolha do tema desta edição reforça a importância de romper o silêncio histórico imposto às mulheres. “Vamos transformar esse cortejo em um grito unido contra o patriarcado, que tenta apagar o protagonismo das mulheres, especialmente das mulheres negras, periféricas, indígenas e de terreiro”, exalta. “Em um ano em que tantas mulheres foram silenciadas pela violência, o Tumaraca se levanta como espaço de memória, luta e afirmação”.
O Mestre Chacon, da Nação Porto Rico e um dos coordenadores gerais do espetáculo, faz parte do Tumaraca desde a época de Naná e revela que o lendário percussionista ensinou o grupo a valorizar o poder da união. “O nosso maior aprendizado com Naná foi entender que ninguém é melhor ou pior do que ninguém. Ele dizia muito que a fatia do bolo dá perfeitamente para todos. Todos nós dependemos de um baque seguro e de uma boa regência”, afirma.
Ele acrescenta como a força do feminino já era de extrema importância para Vasconcelos no começo das atividades do pré-carnaval. “Naná sempre valorizou a presença feminina na música. Minha Nação foi uma das primeiras a colocar a mulher para tocar, e estive com Naná desde o início da abertura do carnaval. Feliz e orgulhoso estou por estar levando adiante esse legado”, enaltece o Mestre Chacon.
Às 16h, na Rua Mariz e Barros, no Bairro do Recife, haverá a concentração das Nações, contando com a presença do Rei e da Rainha do Carnaval 2026, dos mestres de cada Nação e do grupo Voz Nagô. O cortejo segue até o Marco Zero para a apresentação que dará destaque à soberania da ancestralidade, por meio das guardiãs do axé.
Cada grupo tem suas próprias características e sua própria batida, mas este momento da abertura da folia é a hora em que todas as divergências convergem em um único sentido: o de iluminar os caminhos da maior festa de rua do país. “Nossa expectativa é gigantesca, especialmente por trazer um assunto que urge na nossa sociedade. O Tumaraca jamais poderia deixar passar batido esse tema em um ano como este”, reafirma Rubinho.