Curta pernambucano 'Cinema Moderno' sobressaiu na Mostra de Tiradentes
'Cinema Moderno', dirigido pelo pernambucano Felipe André Silva, foi exibido na Mostra Foco, principal competição de curtas da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Um dos filmes mais provocadores de toda a programação da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que abriu o calendário dos grandes festivais do audiovisual brasileiro, foi "Cinema Moderno", dirigido pelo pernambucano Felipe André Silva, de curtas como "Todas as Rotas Noturnas Conduzem ao Alvorecer" e "Cinema Contemporâneo", além de longas como "Santa Mônica" e "Passou".
No filme, de apenas 12 minutos, Guga Patriota toma conta da tela em um texto que se revela um desabafo. Uma resposta a um estado de coisas. Experimentando a estrutura e quebrando barreiras entre a ficção, o ensaio e o documentário, Felipe André encontra em Tiradentes um palco ideal para a ousadia de seus projetos.
Com "Cinema Contemporâneo", ele revisitou o trauma de uma violência e, nos anos que se seguiram, precisou lidar com toda a repercussão do curta. O sucesso rendeu boa visibilidade ao seu trabalho, mas, de certa forma, limitou seus horizontes de realização. "Achei que me expor seria um processo terapêutico, mas não foi. Na prática, limitou meu trabalho a falar desse lugar do corpo negro e queer em um contexto de abuso", explica o diretor ao Diario. "Comecei a me frustrar por perceber que era isso o que boa parte dos curadores queria de mim, já que todas as outras histórias que tentei contar, antes e depois, não tiveram nem de longe o mesmo alcance".
Diretor do grupo ATO Teatro e curador do Janela Internacional de Cinema do Recife, o realizador vem experimentando diferentes modelos narrativos e formais em seus trabalhos e, neste novo filme, exibido na Mostra Foco (principal competição de curtas do evento), retoma um dos mais doloridos processos de sua carreira e, ao mesmo tempo, pensa adiante.
Felipe André revela que está prestes a dirigir um filme musical, o que reflete seu desejo de ampliar a escala de seus trabalhos. "O tipo de cinema que me interessa, que é principalmente aquele de dramas contidos ‘de apartamento’, como muitos chamam, não mudou. Mas estou buscando cada vez mais um escopo maior", diz. "Isso tudo gera, novamente, vários novos anseios, claro. E é por isso que a lógica do edital sempre me machucou muito, porque tenho a necessidade de filmar no agora, já que não sei até quando vou estar interessado naquela ideia".
O conflito entre a experimentação, a dor, o tempo e a imaginação permeia todo o trabalho do diretor e, em "Cinema Moderno", parece confluir para um lugar de transformação. Em toda a sua palpitação e intensidade, já totalmente internacionalizadas, o audiovisual pernambucano precisa desse motor de provocação para alcançar sua vastidão criativa.
"Tiradentes tem essa mística de ser o festival das grandes discussões e é, de fato. A gente sempre dá de cara com olhares bem díspares e o público que vem de fora é quase todo de cinema. E há ainda o público da cidade", complementa. "As respostas que estou ouvindo sobre o meu, por exemplo, só poderiam vir dessa Mostra".